| |
|
| |
|
|
|
Leila Ferreira é uma jornalista
que adora colecionar histórias das loucuras e das
manias femininas. É autora do livro Mulheres:
Por que Será que Elas...?, da Editora Globo |
|

|
Fale
com ela |
|
|
| |
| Mulheres: Por que Será que Elas...?
|
|
|
Moda,
consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse
e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei
a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação
por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas
de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei
com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos
e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam
de verdade, parecem pura ficção |
|
| |
| Nós, Mulheres na Marie Claire |
|
|
|
| |
|
21/07/2008
RETRATOS DA ÍNDIA
Um hotel com perfume de jasmim: eu ia começar o post de hoje falando do Imperial de Délhi, um dos hotéis mais deslumbrantes que já vi na vida. Mas a outra Índia me obriga a mudar de caminho. Não há como escrever sobre o luxo dos cinco estrelas sem falar mais uma vez sobre o tamanho da miséria que se encontra aqui. Eu já disse em outro post que na Índia a miséria grita e uma de vocês (mil desculpas, mas estou sem o nome aqui) mandou um comentário dizendo que no nordeste brasileiro a miséria grita também. Concordo: em algumas regiões do Brasil a pobreza é tão grande que não há como ignorá-la – podemos até nos omitir (e a gente se omite), mas não dá pra dizer que ela não existe. Só que na Índia, onde vive uma população de mais de um bilhão de pessoas, os sinais da miséria se multiplicam.
Nosso carro pára no sinal e imediatamente crianças e mulheres começam a bater nas janelas com força, pedindo dinheiro e gritando. Batem com as mãos, com moedas – parece que vão quebrar os vidros e a cena se repete em todos os sinais, em todos os engarrafamentos. Ao longo das estradas, vemos famílias vivendo em condições indescritíveis. Parece que foram esquecidas ali. Lixo, esgoto, mau-cheiro – a urbanização inexistente e a falta absoluta de condições de higiene transformam a paisagem num retrato implacável da desigualdade. Essa é uma das Índias e quem vem esperando encontrar cidades lindas, limpas e bem-organizadas certamente terá um choque.
Mas existe a outra Índia: a que abriga os hotéis de super luxo, os monumentos que nos deixam sem fala, tamanha a beleza, o artesanato que é uma festa de cores (e dá vontade de levar tudo pra casa…), os avanços tecnológicos, a modernidade, os sinais do crescimento econômico de uma nação que está empenhada em se tornar uma super potência. É nessa Índia que fica o hotel Imperial de Délhi. A gente entra e suspira. Entra e acha que está dentro de um filme. A primeira coisa que se sente é o perfume de jasmim. Mais de cem “oil lamps” espalham o perfume pelo hotel todo e há flores por toda parte. Mas o que mais impressiona é a quantidade de obras de arte: são mais de 4000 (isso mesmo, quatro mil) pinturas, gravuras, esculturas e outros objetos de arte dispostos nos corredores, nos quartos, no lobby e nos sete restaurantes do hotel. O Imperial é chamado de hotel-museu e faz questão de se apresentar assim.
E o charme maior: é um hotel que faz parte da história da Índia. Fundado na década de trinta, era uma espécie de QG para o ex-primeiro ministro Nehru, que promovia aqui suas coletivas de imprensa e aqui teve infinitas conversas com Gandhi. No café do terraço do Imperial, os dois costuraram o futuro da Índia. Ando pelos corredores pensando no passado recente deste país, na imensidão de Gandhi construindo a liberdade de seu povo, na miséria que resiste ali, a poucos metros do hotel, e na liberdade de tantos que ainda falta construir. O perfume de jasmim do Imperial nunca vai sair da minha memória. As mulheres e as crianças batendo com força no vidro do carro também não. Acho que a Índia que se leva é a mistura do que existe de mais belo e de mais desigual. Muito parecida com um país que conhecemos um pouco mais chamado Brasil.
 |
|
|
 |
 |
 |
18/07/2008
AINDA VARANASI, A CIDADE MAIS ANTIGA DA ÍNDIA
Sabe aquela historia do “Se hoje é terça, então isso aqui deve ser a Bélgica”? Pois é, partindo do pressuposto de que hoje é quinta, então ainda devo estar em Délhi. Brincadeira… É que são tantos lugares e tantas experiências em tão pouco tempo que a gente se confunde. E a Índia mexe tanto com os sentidos que as referências acabam se misturando. Mas vamos por partes.
Voltando a Varanasi. No segundo dia nos levantamos às quatro e meia e, às cinco, já estávamos num barco pra ver o amanhecer no Ganges. Durante uma hora e meia deslizamos pelas águas sagradas do rio, vendo o sol chegar aos poucos e iluminar as construções da margem – um conjunto arquitetônico maltratado pelo tempo (e são muitos séculos de história), mas estranhamente belo. Passamos por pessoas rezando, praticando ioga, mergulhando no rio e depois, mais uma vez, paramos pra ver o crematório, que funciona 24 horas por dia. De manhã, a cena é ainda mais chocante. Dá pra ver tudo com nitidez e nossos sentidos se encolhem ou se recolhem, como se tentassem se defender. Aliás, por falar em sentidos, esqueci de dizer no outro post que a cremação é feita em silêncio, porque os hindus acreditam que manifestações ruidosas de luto ou de dor podem atrasar a transmigração da alma. Por essa razão (pelo menos foi o que nosso guia nos disse e confirmei num livro), as mulheres da família do morto não participam do ritual. Como nós, mulheres, somos mais “ruidosas”, digamos, ou demonstramos mais nossos sentimentos, as indianas ficam em casa, enquanto os homens da família acompanham a cremação sem fazer qualquer tipo de manifestação. O silêncio é total.
Depois de acompanhar o ritual da morte mais uma vez, fazemos uma caminhada pelas vielas da parte antiga de Varanasi, que fica colada ao Ganges. É como estar dentro de um filme. São becos estreitíssimos e muito sujos, onde passam crianças miseráveis, vacas, sadhus (homens santos), europeus com cara de hippies perdidos, monges, vendedores de tudo, e onde cada porta e cada janela revela cenas de um mundo diferente. Numa mesma área, ficam um templo hindu e uma mesquita – um lugar que, mais do que traduzir a fé de dois povos, assinala seus conflitos. Existem duas entradas vigiadas por um grande número de policiais: uma dá acesso à mesquita e a outra ao templo. Muçulmanos e hindus usam caminhos separados e os turistas, revistados pelos policiais, só podem chegar perto. Entrar, nem pensar.
À tarde, antes de embarcarmos pra Délhi, dedico umas duas horas ao mais fútil dos programas – fútil e delicioso: comprar presentes pras amigas, sobrinhas, cunhadas e pra mim, é claro. Que perdição que é entrar numa loja ou num bazar na Índia! Os tecidos mais lindos, as echarpes mais inacreditáveis, pashiminas que dá vontade de colecionar, almofadas maravilhosas, toalhas de mesa baratíssimas que são a cara da minha casa de Araxá… Ah, que tentação. Compro o que não cabe na minha mala nem no meu orçamento, mas é aquela velha história: a gente pensa que nunca mais vai voltar aqui, nunca mais vai ter esta chance (você conhece essa conversa…) e acaba comprando o que pode o que não pode, o que deve e o que não deve e aí sai devendo uma fortuna pro cartão de credito. Mas na hora é tão bom…
 |
|
|
 |
 |
 |
16/07/2008
A MORTE, O GANGES E AS VACAS SAGRADAS

Imunda, caótica e, ainda assim, mágica: Varanasi, a cidade sagrada dos hindus, é um dos lugares mais desconcertantes que já vi na vida. Escrevo aqui no aeroporto, enquanto espero o vôo pra Délhi, e ainda me sinto meio atordoada com o que vi em Varanasi. Por onde começar a contar? Talvez pela chegada.
Meia hora de carro do aeroporto e somos jogados num cenário surreal (por falta de um adjetivo mais adequado): carros, motos (milhares), ônibus, riquixás, pedestres e vacas – muitas vacas – se misturam nas ruas, em meio ao som infernal das buzinas. A preferência é das vacas, claro. Elas se deitam nos cruzamentos, no meio das ruas, entram nas lojas, dormem e comem ali no meio do trânsito, e o resto da confusão se adapta a elas. Confusão, aliás, é uma palavra modestíssima pra descrever o que acontece em Varanasi. Só não ocorre um acidente a cada 30 segundos porque Shiva não quer. Todos os veículos passam a milímetros uns dos outros e os pedestres vão se contorcendo entre eles. Nas ruas, lixo por toda parte. A sujeira é chocante. Os vendedores nos assediam e nos seguem, as bicicletas surgem do nada – não há um segundo de tranqüilidade. Mas aí a gente chega à margem do rio Ganges e o impacto do que se vê é tão grande que perdoamos todo e qualquer pecado de Varanasi.
Chegamos lá ao anoitecer e é como se nossos sentidos fossem chacoalhados. É a hora do ritual das oferendas para o Ganges, que os hindus consideram seu rio sagrado, e milhares de pessoas se concentram nas escadarias da margem e nas águas, rezando, entoando cânticos, se banhando, queimando incenso e jogando flores no rio. Crianças, jovens, adultos, velhos – todas as etapas da vida se encontram com as águas escuras do Ganges. E é nele, ou ao lado dele, que os hindus se despedem dos seus mortos. Ah, o Ganges e a morte… De novo, por onde começar?
Entramos num barco que desliza em silêncio pelo rio. Já é noite e avistamos o fogo de longe. O barco se aproxima, entramos no território onde as fotos são proibidas, subimos a escadaria da margem e chegamos ao lugar mais impressionante de Varanasi: o crematório, onde os corpos dos hindus ardem em fogueiras feitas por seus familiares. São várias fogueiras Os corpos chegam envoltos por papéis brilhantes, são mergulhados no rio, colocados pra secar na escadaria e depois cremados num espaço minúsculo, uns bem perto dos outros. Os turistas se aproximam, mas quase ninguém ousa entrar. Fico sem saber o que fazer. Quero e não quero ver. Sinto medo e curiosidade. Acabo entrando naquela espécie de terraço cercado por paredes baixas. Dou a volta quase esbarrando nos corpos e as fagulhas que saem das fogueiras atingem meu rosto. O calor é insuportável.
Saio dali sem saber o que sentir e muito menos o que pensar. A dez metros dali, algumas pessoas jantam, outras rezam, vacas passeiam pelas vielas escuras, um vendedor de lenha passa carregando um feixe nas costas, um sacerdote entoa um mantra e o dono do barco que nos levou chama pra voltar.
Voltamos pro hotel em silêncio e pedimos na recepção que nos acordem às quarto horas para ver o amanhecer no Ganges. Será que, com a luz da manhã, o impacto vai ser menor? Será que o sol que chega depois de uma noite marcada pelo rituais da morte é capaz de dissipar as sombras?
Amanhã e conto.
Bjs e até lá.
|
|
|
 |
 |
 |
15/07/2008
MAIS UM CAPÍTULO
Imagine a situação: você está sentada numa festa com seu namorado ou marido e um homem que você nunca viu chega e tira, não você, mas ele, o seu companheiro, pra dançar. Foi o que me aconteceu aqui em Chennai. Na festa de congraçamento do congresso, os médicos tiravam uns aos outros pra dançar e só eventualmente convidavam alguma mulher pra se juntar a eles. Primeiro, eram só indianos convidando indianos. Depois os estrangeiros passaram a ser chamados também e nessa o Fernando, com a cara mais assustada do mundo e tentando fingir naturalidade, teve que ir pra pista de dança com dois cavalheiros de bigode, terno e gravata. Dançavam todos separados, sem se tocar, mas formando pares e saltitando nas músicas mais animadas. E o mais engraçado foi ver a reação do Fernando no primeiro convite: ele arregalou os olhos na frente do colega, apontou pra ele e me disse, como se eu não estivesse vendo: “Leila, ele tá me chamando pra dançar!”. Tradução: “Quê que eu faço?!”. Empurrei meu ex-marido pros braços do indiano e enfrentei com galhardia minha sessão de chá-de-cadeira em Chennai.
A festa teve duas outras cenas curiosas. A primeira foi na entrega de medalhas. Oito médicos de diferentes países receberam uma medalha de ouro pelo trabalho de pesquisa que vêm desenvolvendo (entre eles, o Fernando). Foram sete homens e uma mulher, uma médica indiana. Um ministro do governo da Índia colocou a fita com a medalha no pescoço de todos eles, menos da médica, pra evitar o contato físico com uma mulher. Ela recebeu a fita das mãos do ministro e dependurou, ela mesma.
A outra cena aconteceu na hora do jantar. Eu já sabia do costume indiano de usar as mãos, ou melhor, a mão direita, pra levar à boca o que se come no almoço e no jantar, mas imaginava que isso era feito só com os alimentos mais sólidos ou mais secos. Não. Na festa foram servidos vários pratos – salada de pepino e tomate com iogurte, arroz, batata “sautée”, carneiro, queijo em cubos no molho de tomate, spaghetti com vários tipos de molho – e tudo, absolutamente tudo, foi comido sem talheres por boa parte dos convidados Você conversar com alguém que está comendo um spaghetti com a mão não é fácil. Tem um condicionamento histórico que nos faz sentir no minimo aflição com a cena. Mas a última coisa que quero aqui é julgar. Quem somos nós, com nossa cultura tão cheia de falhas, pra criticar os hábitos de outro povo? Melhor nem tentar. Mudando de tema. Hoje peguei um táxi e pedi ao motorista que me mostrasse onde vivem os pobres, a classe média e os ricos de Chennai. Passamos por bairros residenciais com casas enormes, mas sem a ostentação das nossas “casas de rico”. Vimos prédios simples onde, segundo o motorista, vivem famílias de classe média. E por fim vimos os pobres, aliás, os muito pobres, que ficam nas ruas ou em áreas sem qualquer sinal de urbanização – locais que se parecem com aterros sanitários e onde as crianças brincam no meio do lixo. Perguntamos ao motorista se há muita violência nessas áreas e ele disse que não, que qualquer um pode passar ali a qualquer hora sem o risco de ser assaltado. Depois pedi que parasse perto de um grupo de pessoas que vivem nas ruas na região central, entre elas duas mulheres – mãe e filha – que fazem os tradicionais enfeites de flores de jasmim que as indianas usam em seus cabelos. Fiquei ali uns 15 minutos, conversando com elas e vendo o trabalho que fazem. A mãe, de 35 anos, parece ter mais de 50 e a filha, de 23, tem cara de 18. O motorista do táxi serviu de intérprete, já que as duas só falam tamil, a lingua do estado de Tamil Nadu, onde fica Chennai. “Moram” na rua há anos e vivem da venda desses fios de flores que custam 10 rúpias, menos da terça parte de um dólar. Gentis, me convidaram pra sentar com elas e responderam a todas as perguntas com paciência. Olhei as roupas coloridas daquelas duas mulheres, a beleza da filha, o sorriso triste, mas acolhedor, da mãe e por alguns segundos me esqueci de que estava entre pessoas castigadas pela miséria. Saí dali com meu fio de jasmins nos cabelos e um peso enorme na consciência. No Brasil, a miséria fala baixo. Aqui na Índia ela grita. E nós, que gostamos tanto de nos fazer de surdos, ficamos sem ter pra onde correr. Ainda bem. Quem sabe assim a gente desperta?
 |
|
|
 |
 |
 |
14/07/2008
DIÁRIO DA ÍNDIA
Terceiro dia em Chennai, a quarta maior cidade da Índia. Tudo é novo. Tudo exige um olhar que ainda não tenho. Mulheres em saris de mil cores, homens usando aquele tecido amarrado como Gandhi, vacas atravessando as ruas, ruas cheias de carros, motos, caminhões, ônibus e rikishaws e todos – carros, motos, caminhões e rikishaws – sendo conduzidos por espíritos destemidos. Não existe adjetivo capaz de descrever o trânsito daqui. Qualquer tentativa de explicar como se comportam os motoristas indianos fica aquém do que se vê em Chennai e, pelo que me disseram, no resto da Índia. A temperatura está por volta dos 35 graus e saímos para um passeio numa van com um grupo de médicos que estão participando do congresso. O motorista nos cumprimenta com uma expressão serena, assume o volante e a serenidade termina aí. Mergulhamos numa nova modalidade de esporte radical. Em duas pistas, não sei como, circulam três veículos. Um em cima da faixa central e os outros dois no que sobra de espaço – o que é muito pouco. Quem é maior vai empurrando os outros e todos – absolutamente todos – buzinam sem parar. Não, não é força de expressão, é sem parar mesmo. Com dez minutos no trânsito, eu já estava sonhando com uma Neosaldina. Nunca vi - e tenho certeza de que não existe - nada parecido. Moro em São Paulo e já morei na Cidade do México. Nada me preparou pra realidade do trânsito daqui.
Saímos da van completamente atordoados e, primeira parada: um parque de crocodilos. Naquela altura, nem uma visita a um ashram ou um encontro com o Dalai Lama nos acalmaria. E nosso guia achou que era hora de vermos crocodilos! Depois ele nos levou pra conhecer um farol e o passeio terminou com um almoço temperado – claro - com muuuuita pimenta. Sorvete de sobremesa, pra abrandar o fogo na boca e no estômago, e a volta na van – uma hora de buzinas, manobras radicais e a sensação, no final, de que tínhamos sobrevivido a algo que oferecia poucas chances de sobrevivência. Com sorrisos amarelos, agradecemos o passeio e viemos nos recuperar no hotel – que é o máximo, diga-se de passagem. O Taj Coromandel tem quartos ótimos e todos os mimos que qualquer hóspede gosta de ter. No banheiro, mil vidrinhos com shampoos cheirosos e cremes. No quarto, robes, chinelos, flores naturais trocadas diariamente e chocolates. À noite, quando arrumam a cama, deixam junto com os chocolates uma listinha com vários lembretes, entre eles: “Você já ligou pra sua família hoje?”, “Já checou as mensagens de voz?”, “Já tomou seus remédios?”.
Estou aqui escrevendo o post no business center do hotel e pedi uma xícara de chá pra esquentar, por causa do ar condicionado. O chá veio num bule de prata, numa bandeja linda, com biscoitinhos e um lírio perfumado. O garçom, gentilíssimo, me serviu, deixou a bandeja aqui do meu lado e me desejou um ótimo dia. É o outro lado do país, a contrapartida do trânsito insano que se enfrenta aqui. Delicadeza, respeito, pequenos rituais que deixam o cotidiano mais leve – isso também é a Índia.
Sei que tem gente que vai dizer que ficar num hotel cinco estrelas é coisa de turista que não quer conhecer a realidade de onde está. Não concordo. Mas cada um tem o direito de escolher sua forma de viajar. Só sei que quero ver muito e aprender muito com o que estou vendo, independente do número de estrelas dos hotéis. E já tenho um punhado de coisas pra dividir com vocês. Amanhã conto mais. Ah, e antes que eu me esqueça: estava lendo um dos jornais daqui, o “Times of India”, me parece, e fui conferir a lista dos livros mais vendidos. Em terceiro lugar, passando na frente de autores como John Grisham, está Paulo Coelho com “Brida”. E, na seção de passatempos, havia um teste pra adivinhar de quem era o sorriso da foto: de Ronaldo Fenômeno ou do Ronaldinho gaúcho? Era do Ronaldinho, que é estrela também aqui.
Amanhã conto como foi a festa do congresso, com homens tirando homens pra dançar. Tomei chá de cadeira!...
Bjs.
|
|
|
 |
 |
 |
11/07/2008
DIÁRIO DE UMA VIAJANTE APRESSADA
09/07/08
14h30: Sala vip da Air France em Guarulhos. Aqui começa a viagem – ou deveria. Luminárias de design, “finger sandwiches”, passageiros com ar de bem-sucedidos. Um garçom atento. Uma recepcionista solícita. Tudo aqui funciona, mas não sei como dar o primeiro passo em direção à Índia. O encontro com o país dos ashrams definitivamente não começa aqui. O vôo é São Paulo-Chennai (antiga Madras), com escala em Paris. Vinte e duas horas nas nuvens. Enquanto não anunciam o embarque, vou observando o ambiente. Do meu lado, um francês elegantérrimo fala no celular e, ao mesmo tempo, tecla alguma coisa no laptop. A fala é agitada e ele escreve rapidamente. É a imagem do stress. Em frente, duas brasileiras falam (alto) sobre cremes anti-rugas e dietas. Onde está a Índia?
Hora de embarcar. Por razões que não vêm ao caso explicar, vamos na classe executiva (e por que será que eu me sinto na obrigação de explicar?). No jantar, foie-gras na entrada e, de prato principal, salmão ou codorna recheada. Saudades do bife de Araxá… Como diz um amigo meu: “Leila, você precisa refinar esse paladar…”. Vôo tranqüilo. Na programação da TV, “Desperate Housewives” e CSI. Começo a assistir CSI, que eu amo, mas meus amigos Grisson, Nick e Warrick não combinam com este começo de viagem pra Índia. Desligo a TV e abro um livro. O sono vem, vem outra refeição que meu paladar não merece (ou não reconhece) e chegamos a Paris. Dia de céu azul, do alto dá pra ver o Palácio de Versalhes e a Torre Eiffel. Mas minha cabeça está na Índia.
Na escala, mais uma sala vip, mas aqui sinto que a viagem começa. Mulheres de saris coloridos, crianças com olhos de jabuticabas imensas, homens de bigodes fartos e pele escura. Uma indiana que deve morar na França pergunta carinhosamente à filha que está no seu colo: “Qui est la plus jolie? Toi! Tu es la plus jolie!”. Estranho aquele diálogo em francês. Parece filme dublado. Embarcamos e vamos contemplando os picos nevados dos Alpes suíços. Agora sobrevoamos a Áustria. No meio da montanha, um lago de um azul absurdo. Um avião passa por nós, no sentido contrário. A que velocidade estaremos? Lá embaixo, a natureza parece estática, eterna. No almoço, mais foie-gras e galinha-da-guiné de prato principal. Estou me sentindo num aviário. Ganso, galinha, codorna… Adoraria ter essas aves todas no meu quintal. Mas no meu estômago, sei não…
Durmo e, quando acordo, estamos sobrevoando o Golfo Pérsico. Dali a pouco o Paquistão aparece na tela do monitor e aí os nomes das cidades da Índia começam a surgir. Fernando e eu brindamos com chá e, à uma da manhã ((quatro e meia da tarde no Brasil), nosso avião pousa em Madras, aliás, Chennai (tenho que me acostumar com o nome).
No aeroporto, a primeira coisa que vejo, na vitrine de uma livraria fechada, com as luzes semi-apagadas, é um livro do Paulo Coelho: “The Witch of Portobello”. Enfrentamos uma longa fila na imigração, mas o desembarque é tranqüilo. Lá fora, uma multidão espera pelos passageiros e um motorista descalço nos leva em seu táxi, dirigindo insanamente e buzinando como se o carro tivesse perdido o freio. Agora, sim, estamos na Índia.
Fazemos o check-in num hotel cinco estrelas, onde o Fernando (meu ex-marido e sempre-amor) vai participar de um congresso médico, somos recepcionados por dois indianos gentilíssimos e bem-humorados (às duas da manhã) e vou dormir ainda sem acreditar que estou aqui. Que país é este? Temos 12 dias pra tentar descobrir.
|
|
|
 |
 |
 |
08/07/2008
DESPEDIDA & RECADOS
Quase hora de ir pra Índia. E eu aqui, no meu quarto-e-sala em Pinheiros, tropeçando em malas, sacolas e roupas, escrevendo a coluna da Marie Claire, marcando pra fazer unhas e pintar o cabelo (por quê que ele cresce tão depressa?), constatando que ainda tenho que passar no banco, na farmácia, na locadora... Ai, ai, ai! Mas no final dá certo.
E, antes de ir, alguns recados. Só alguns, por absoluta falta de tempo. Pra vocês que mandam comentários, e que eu gostaria de estar respondendo diariamente, mil desculpas. Hoje vou responder só os dos posts “Dando um tempo”, “É brincadeira” e “Aprender faz bem”. Vamos lá.
“APRENDER FAZ BEM”:
- Oi, Lídia, que bom que você viu o texto! E obrigada por me presentear com essa história. Se não fosse sua vontade de aprender, eu não teria constatado a do Rubem Alves. Beijos! - Olá, Karina, concordo com você: a perspectiva infantil dá um sentido diferente a tudo. Pena que perdemos isso tão cedol. - Renata, beijos carinhosos pra você. É sempre uma delícia ler seus comentários. - Oi, Gisele, já caminhou hoje? - Simone e Cristina, beijos pra vocês. - Camila, super obrigada pelas palavras carinhosas! - Olá, Mônica Loureiro, concordo com você e Gisele. - Oi, Mônica Paiva, parabéns pra sua mãe e beijos pra ela (e pra você também, claro!) - Olá, Alessandra, que bom te encontrar sempre nesta minha casa virtual!
“É BRINCADEIRA!”
-Renata, aos 29 a coisa já está pegando?! - Teresa, aos 24 é demais! - É, Gisele, aos 26 também é de matar... - Rafa, de vez em quando um homem passa pelo que nós, mulheres, enfrentamos cotidianamente... - Eliza, então o ponto G ainda não foi identificado na América Central? - Fátima, “senhora” também irrita... - Donna, põe “toscos” nisso... - Bem-vinda, Macicler! Junte-se a nós. - É, Consuelo, o “Dona Maria” é clássico também. - Sandra, adorei o “se entender na horizontal”. Na vertical ainda temos (nós e eles) um longo caminho a percorrer. - Marcos, obrigada elo comentário, feito com a delicadeza de que nós, mulheres, tanto gostamos. - Monica, beijos mineiríssimos pra você.
“DANDO UM TEMPO”
-Amanda, claro que você pode indicar o post no seu weblog. Fico super feliz! - Denise do Egito, assim que voltar de viagem vou “passear” pelo seu blog. - Lenita, faço minhas suas palavras. - Alessandra, concordo: o equilíbrio está no meio. - Luzinha, obrigada com o carinho pelo blog. - Sheila, “o que precisa ser feito” geralmente precisa ser feito, mas não é sempre. Às vezes (muito de vez em quando...) dá pra trocar pelo nada fazer...
Beijos pra todos. Até a volta. E tomara que eu mereça esta chance que estou tendo de conhecer a Índia. Fui, aliás, vou!!!
|
|
|
 |
 |
 |
08/07/2008
DESPEDIDA & RECADOS
Quase hora de ir pra Índia. E eu aqui, no meu quarto-e-sala em Pinheiros, tropeçando em malas, sacolas e roupas, escrevendo a coluna da Marie Claire, marcando pra fazer unhas e pintar o cabelo (por quê que ele cresce tão depressa?), constatando que ainda tenho que passar no banco, na farmácia, na locadora... Ai, ai, ai! Mas no final dá certo.
E, antes de ir, alguns recados. Só alguns, por absoluta falta de tempo. Pra vocês que mandam comentários, e que eu gostaria de estar respondendo diariamente, mil desculpas. Hoje vou responder só os dos posts “Dando um tempo”, “É brincadeira” e “Aprender faz bem”. Vamos lá.
“APRENDER FAZ BEM”:
- Oi, Lídia, que bom que você viu o texto! E obrigada por me presentear com essa história. Se não fosse sua vontade de aprender, eu não teria constatado a do Rubem Alves. Beijos! - Olá, Karina, concordo com você: a perspectiva infantil dá um sentido diferente a tudo. Pena que perdemos isso tão cedol. - Renata, beijos carinhosos pra você. É sempre uma delícia ler seus comentários. - Oi, Gisele, já caminhou hoje? - Simone e Cristina, beijos pra vocês. - Camila, super obrigada pelas palavras carinhosas! - Olá, Mônica Loureiro, concordo com você e Gisele. - Oi, Mônica Paiva, parabéns pra sua mãe e beijos pra ela (e pra você também, claro!) - Olá, Alessandra, que bom te encontrar sempre nesta minha casa virtual!
“É BRINCADEIRA!”
-Renata, aos 29 a coisa já está pegando?! - Teresa, aos 24 é demais! - É, Gisele, aos 26 também é de matar... - Rafa, de vez em quando um homem passa pelo que nós, mulheres, enfrentamos cotidianamente... - Eliza, então o ponto G ainda não foi identificado na América Central? - Fátima, “senhora” também irrita... - Donna, põe “toscos” nisso... - Bem-vinda, Macicler! Junte-se a nós. - É, Consuelo, o “Dona Maria” é clássico também. - Sandra, adorei o “se entender na horizontal”. Na vertical ainda temos (nós e eles) um longo caminho a percorrer. - Marcos, obrigada elo comentário, feito com a delicadeza de que nós, mulheres, tanto gostamos. - Monica, beijos mineiríssimos pra você.
“DANDO UM TEMPO”
-Amanda, claro que você pode indicar o post no seu weblog. Fico super feliz! - Denise do Egito, assim que voltar de viagem vou “passear” pelo seu blog. - Lenita, faço minhas suas palavras. - Alessandra, concordo: o equilíbrio está no meio. - Luzinha, obrigada com o carinho pelo blog. - Sheila, “o que precisa ser feito” geralmente precisa ser feito, mas não é sempre. Às vezes (muito de vez em quando...) dá pra trocar pelo nada fazer...
Beijos pra todos. Até a volta. E tomara que eu mereça esta chance que estou tendo de conhecer a Índia. Fui, aliás, vou!!!
|
|
|
 |
 |
 |
07/07/2008
DESTINO: ÍNDIA
É isso mesmo, amigas: vou pra Índia!!! Depois de amanhã pego um avião da Air France em São Paulo e, depois de 22 horas de vôo com uma escala em Paris, desembarco em Madras. Lembram que eu disse aqui que talvez fosse fazer essa viagem com meu ex-marido (e meu sempre-amor)? Pois é, a viagem saiu. Nós vamos passar 12 dias mergulhados numa das culturas mais fascinantes do planeta e é claro que vou contar tudo – quero dividir com vocês as impressões, as sensações, o impacto que certamente sentiremos diante daquela espécie de continente onde convivem tantas línguas, tantas religiões e mais de um bilhão de pessoas.
Estou aqui fazendo as malas. Como vamos pegar calor forte (além de tempestades, porque é a época das monções), o guarda-roupa é básico: calças leves e camisetas. Mas, no que vai sobrar de espaço na mala, tenho que fazer caber alguns itens essenciais: ausência de preconceito, pra ver o novo com novos olhos; humildade, pra saber que nada sei do que estou vendo ali e, portanto, não posso julgar; tolerância, pra agüentar, entre outras coisas complicadas, o festival de buzinas que é a trilha sonora por excelência da Índia; vontade de aprender, pra aproveitar a infinidade de lições que vou encontrar pelo caminho; coragem, muita coragem, pra enfrentar os macacos que nos puxam pelas roupas, roubam nossos lanches e bolsas e vão me matar do coração, porque morro de medo de macacos, e, por último, um caderno bem grosso, pra anotar tudo que for possível traduzir em palavras – e sei que é impossível traduzir a Índia.
Enfim, amigas, estou super feliz, com medo, animada, estressada – tudo misturado, tudo ao mesmo tempo agora. Mas sei que vai ser uma experiência única e vai valer a pena. Amanhã a gente ainda se fala. Tenho uma lista de recados pra vocês que mandam comentários que não tenho tido tempo de responder (ah, o tempo!) e, claro, vou me despedir direito – como pede a ocasião.
Bjs e até.
|
|
|
 |
 |
 |
04/07/2008
DANDO UM TEMPO
Uma vez entrevistei no presídio de segurança máxima de Taubaté o cirurgião plástico Hosmany Ramos, que trocou a medicina e a vida de personagem das colunas sociais pelo mundo do crime. Hosmany é escritor, já teve seus livros publicados por uma editora de prestígio da França e disse uma coisa na entrevista que me fez pensar. Falando sobre seus dias na prisão (ele está preso há mais de 20 anos), o ex-cirurgião do “high society” carioca observou que ali ele tinha, de sobra, o produto mais escasso do mundo, o grande luxo dos dias de hoje: tempo. Tempo pra ler, tempo pra escrever, tempo pra pensar, tempo pra sentir... Claro que ter tempo à custa de perder a liberdade não é bom. Do contrário, Hosmany Ramos não teria tentado fugir tantas vezes da prisão. Mas uma coisa é certa: ter tempo, hoje, é um luxo. Talvez o maior de todos que podemos ter.
Como disse o filósofo (que não me canso de citar) Mario Sergio Cortella, hoje a gente olha pro relógio, não pra ver que horas são, mas pra saber quanto tempo falta. Estamos sempre atrasados, sempre correndo, sempre dizendo que está “em cima da hora”. É o que ele chama de turbinamento do cotidiano. Temos a ilusão de estar fazendo tudo cada vez mais rápido, mas, ao contrário do que seria de se esperar, não nos sobra tempo. O tempo que em tese economizamos, ao fazer tudo correndo, não nos proporciona mais tempo livre. Logo arranjamos mais coisas pra fazer - e pra nos fazer correr. E os livros que queremos ler, os filmes que queremos assistir, as pessoas queridas que queremos encontrar e os CDs que amamos ouvir vão ficando esquecidos.
Que tempo é esse que nos faz esquecer o que é bom e o que nos faz felizes? Que corrida é essa que nos premia com um cansaço crônico e a permanente sensação de vazio? Ontem me lembrei das palavras do Hosmany Ramos olhando a pilha de livros ao lado da minha cama – livros que escolhi amorosamente e que amorosamente me olham todos os dias, esperando a hora de nos encontrarmos. Não tenho tempo pra eles, assim como não tenho tempo pra ligar pras minhas amigas, pra ir pra Londrina ver minhas sobrinhas que estão crescendo e cuja infância nunca mais irá se repetir – enfim, não tenho tempo pra fazer a maioria das coisas que me dá prazer, me faz crescer e faz a vida ter sentido.
Ontem, por mais incrível que pareça, senti inveja do Hosmany Ramos. Tive vontade de ter o tempo que ele tem pra ler. Cheguei a pensar, por uns 30 segundos, que não deve ser tão ruim ficar preso. Aí me dei conta do tamanho da loucura. Quando a gente começa a ter inveja de quem está num presídio de segurança máxima é porque alguma coisa está intrinsecamente errada com o estilo de vida que escolhemos ter.
|
|
|
 |
 |
 |
01/07/2008
É BRINCADEIRA!!!

Eu não acredito. Juro que não acredito. Há poucos dias falei aqui sobre minha indignação por ter sido chamada de “tia” numa lanchonete na estrada pra Araxá. O quarentão que me atendeu pediu, gritando, pro colega, que desse “um café pra tia”. Todo mundo ouviu, todo mundo riu, e eu fui com aquele “tia” atravessado na garganta até Araxá. Pois não é que hoje, na volta pra São Paulo, eu fui presenteada com mais uma pérola? Pedi um café (em outra lanchonete, claro, porque daquela vou dar um tempo) e, quando me entregou a xícara, o atendente disse: “Aqui seu café, patroa”.
“Patroa” ou “tia”? Qual palavra nos incomoda mais? Qual das duas sai ganhando em matéria de atentado à auto-estima feminina? No meu livro eu brinco que, na nossa cultura, depois de uma certa idade a mulher vira ONG. Ela cumpre um papel, tem uma função socialmente reconhecida, mas deixa de ser mulher. Essa espécie de entidade, instituição ou repartição pública em que nos transformamos (ou nos transformam) é chamada de “tia”, “patroa”, “coroa”, enfim, o repertório que os homens usam pra nos lembrar de nossa mudança de estatuto é vastíssimo. Isso quando não soltam frases como “não sou rei, mas gosto de uma coroa” ou “panela velha é que dá bom caldo”, achando que: 1) estão dizendo a coisa mais original do mundo; 2) devemos ficar gratas pelo elogio.
Ah, Isabel Allende, se, como você falou, o ponto G fica no ouvido (e eu concordo), o que fazer pra que os homens tenham um pouquinho mais de sutileza e de elegância no trato com as mulheres acima dos 35? Sei que não são todos. É claro que não são todos. Mas alguns pegam pesado.
Eu, agora, por segurança, na próxima ida a Araxá vou levar na bagagem uma garrafa de café e meia dúzia de pães de queijo. Dirigir 570 quilômetros já não é fácil. Parar pra “ter amolação”, como diz minha mãe, só serve pra tornar a viagem mais difícil. Pode até ser que nas outras lanchonetes o serviço não inclua palavras como “tia” e “patroa”. Mas prefiro não correr o risco.
Foto: Reprodução/Edward Hopper
|
|
|
 |
 |
 |
30/06/2008
APRENDER FAZ BEM
Millôr Fernandes disse uma vez que, se Deus fosse contra a paquera, não teria nos dado um pescoço com tanta mobilidade. Concordo. Nossa anatomia nos permite olhar em volta, explorar o ambiente e descobrir possibilidades – mas não só no terreno amoroso ou sexual. Acho que esse pescoço móvel e esse olhar que pode passear por tantas paisagens devem nos estimular a buscar o novo em todos os sentidos, descobrir o que não sabemos, entrar em contato com o que não conhecemos – em resumo, aprender. Poucas coisas são tão estimulantes quanto aprender e, não sei por quê, muitas vezes nos esquecemos disso. Passamos longos períodos sem ler, ou sem fazer um curso, ou aprender a falar uma língua, fazer uma viagem, assistir a uma palestra, ver um documentário bacana na TV, conversar com alguém que nos ensine algo ... enfim, somos acometidos por uma espécie de inércia, de estagnação, e isso rouba da vida um dos aspectos mais interessantes que ela tem.
Estou dizendo isso porque vi um exemplo contrário neste último final de semana. Participei, aqui em Araxá, do II Congresso de Decoração e Design promovido pela AMIDE (Associação Mineira de Decoradores de Nível Superior), que reuniu oito palestrantes interessantíssimos, entre eles o maestro João Carlos Martins, o estilista Ronaldo Fraga e a especialista em tendências de consumo Jody Turner. Como mestra de cerimônia do evento, tive a sorte de poder acompanhar tudo e amei tudo que ouvi, mas o que mais me chamou a atenção foi a atitude de Sergio Rodrigues, um dos arquitetos e designers mais conceituados e premiados do país. Sergio estava encarregado de fazer a palestra de encerramento do congresso, que durou três dias, ou seja, sua obrigação, se podemos chamar assim, era estar no auditório só no final do último dia. Mas ele, aos 80 anos de idade, assistiu a todas as palestras. Era um dos primeiros a chegar, fazia perguntas, participava, e só saía ao final da programação. Ou seja, um homem que sabe tanto, já viveu tanto e poderia estar ali, entre tanta gente que o reverencia,com o intuito único de ensinar, se colocou na posição de aprender. Trouxe na bagagem curiosidade, inquietação e humildade – e acabou sendo um dos participantes mais jovens do congresso, apesar de suas quatro décadas de vida.
É o mesmo espírito do escritor, educador e psicanalista Rubem Alves. Há poucos dias me sentei perto dele em um vôo, acho que de Maceió pra Belo Horizonte, e, quando o avião pousou, Rubem Alves perguntou a uma passageira que estava em sua fileira que livro era aquele que ela estava lendo. Disse que, como ela tinha lido durante o vôo todo, com a maior atenção, ele tinha ficado curioso – e queria saber o título e o autor. O livro era “As Benevolentes”, de Jonathan Littell, uma obra de mais de 900 páginas que conta as memórias de um oficial nazista que participou dos horrores da Segunda Guerra. Rubem Alves examinou a capa com interesse, agradeceu e voltou a se sentar pra continuar seu vôo até Campinas.
Rubem, aos 75 anos, e Sergio, aos 80, são exemplos de profissionais que produzem com a maior competência porque não pararam de aprender. São dois mestres que se recusam a aposentar o olhar e correm atrás do novo com o vigor que muitos adolescentes não têm. Saí daquele avião querendo ler tudo que encontrasse pela frente. Saí do congresso de Araxá querendo assistir a mil palestras. Aprender é melhor que qualquer creme anti-rugas e quase qualquer remédio. Que o digam nosso jovem escritor e nosso jovem arquiteto.
|
|
|
 |
 |
 |
27/06/2008
ENGORDEI PORQUE...
Me perdoe, Mary, minha amiga mais que querida, mas vou passar na frente e contar aqui a história que você me contou e deve virar texto em breve. Explico: Mary Figueiredo Arantes é uma designer de acessórios talentosíssima que, não contente com a beleza das peças que cria, ainda escreve crônicas que chegam a doer, de tão bonitas (faz sentido isso? Pra mim faz).Tudo que ela vive e tudo que ouve vira crônica e a passagem que me contou outro dia com certeza vai virar também, mas vou dar só um preview aqui.
Seguinte: Mary estava dividindo um quarto de hotel com uma amiga e se preparavam pra ir a uma festa quando a amiga pediu que ela fechasse o zíper de seu vestido. Quando ela se virou, Mary constatou que entre um lado e outro do zíper havia uns 10 centímetros de pele, ou seja, sem chance do vestido fechar. Minha amiga puxou, puxou, chegou a suar, mas... “mission impossible”! Corpo e vestido, naquele momento, eram incompatíveis. Consternada, Mary deu a notícia à amiga, que, mais consternada ainda, respondeu simplesmente: “Meu vestido emagreceu!”.
Assim somos nós, mulheres. Pressionadas pela ditadura da estética, usamos nossa criatividade (ilimitada, como sabemos) pra tentar justificar qualquer alteração de peso (pra mais, é claro). Na adolescência, a culpa é da adolescência: alterações hormonais. Na menopausa, a culpa é da menopausa: de novo, alterações hormonais. Na gravidez, culpa da gravidez (a única justificativa inquestionável). E no pós-parto, culpa do pós-parto.
Tem também a clássica “retenção de líquidos”: o jeans não fecha porque estamos “retendo muito líquido ultimamente”. Precisamos até marcar uma consulta pra ver o que está havendo. Ou, uma desculpa um pouquinho mais complexa (e infinitamente mais vaga): “Meu metabolismo mudou”. Essa serve pra tudo – e quem é que vai duvidar? Teriam que pedir pelo menos um hemograma nosso pra saber se estamos mentindo.
Por último, a mais recorrente de todas as desculpas: a ansiedade. Em tempos de stress como os que estamos vivendo, nunca vão faltar motivos pra ficarmos ansiosas, e a ansiedade, você sabe... A gente come mais, sente falta de doces, precisa daquele chocolate, ataca a geladeira às duas da madrugada...
Enfim, do stress à retenção de líquidos, nós nos valemos de tudo pra sermos absolvidas pelo pecado dos quilos a mais (o fato de gordura ter virado pecado fica pra outro post). Mas dizer que o vestido emagreceu é a primeira vez que eu ouço – e adorei! Só pra concluir a história: a dona do vestido, como não tinha nenhuma opção mais gordinha na mala, foi com o magro mesmo e resolveu o problema do espaço entre as duas partes do zíper usando uma bela pashmina. Por sorte, a pashmina ficou firme nos ombros a noite toda. Assim como sua dona, ela não tinha emagrecido.
|
|
|
 |
 |
 |
26/06/2008
É MAIS EM CIMA...
Foi Isabel Allende quem disse uma vez: o tão falado (e tão procurado) ponto G fica no ouvido. Isso mesmo. Não há nada que estimule tanto uma mulher quanto as palavras certas ditas na hora exata. E por “certas” entenda-se certas para aquela determinada mulher, porque cada uma gosta de ouvir um tipo de coisa. Uma se excita ouvindo palavras românticas, outra gosta das frases maliciosas de duplo sentido (de preferência não-óbvio). Algumas amam ouvir versos (curtos, por favor) de poetas consagrados. Outras preferem um repertório mais punk – onde cabem diálogos picantes e uma ou outra ousadia (às vezes todas as ousadias).
O homem que sabe usar as palavras sai na frente. Uma frase dita no tom certo vale mais do que mil gestos. Se for acompanhada pelo olhar adequado, aí ninguém segura. E isso vale pra qualquer momento – não só na hora da transa. A frase carinhosa, o elogio feito de uma forma original, a palavra que nos faz balançar, o diálogo temperado pela excitação da conquista – tudo isso vai estendendo o leito da sedução, forrando o chão pro amor, pondo a mesa pro banquete dos sentidos.
Se os homens soubessem como as palavras são importantes, não fariam nunca o que fez o marido de uma amiga minha. Outro dia, os dois, casados há uns 12 anos, estavam tomando um vinho num restaurante romântico e ela, sentindo uma “onda de amor” por ele, como costuma descrever, disse no tom mais apaixonado: “Se você soubesse como eu gosto de você...”. Ele respondeu com uma palavra: “Obrigado”. Assim, tipo agradecimento por um elogio recebido na reunião da diretoria da empresa. Minha amiga engoliu em seco, depois engoliu o vinho e por último engoliu o comentário que teve vontade de fazer. Disse que a noite terminou em frente à TV, com zero de romance e nenhuma incursão na região do ponto G – ou melhor, dos pontos G: o dos sexólogos e o da Isabel Allende. Nada foi dito. Nada foi feito. Tudo por causa das quatro sílabas daquele “obrigado”. Ah, se os homens soubessem (e claro que alguns sabem) o que a linguagem representa pro sexo feminino... Pro bom entendedor, uma palavra basta. Pra nós, mulheres, às vezes não. Principalmente se a palavra em questão for um “obrigado” como resposta a uma declaração de amor. Na melhor das hipóteses, é muita falta de imaginação...
|
|
|
 |
 |
 |
24/06/2008
“TIA” NINGUÉM MERECE!
Foi na estrada de São Paulo pra Araxá. Depois de dirigir mais de cinco horas, parei, exausta, pra lanchar e pedi um café e um pão de queijo. O funcionário, de seus 40 e poucos anos, me serviu o pão de queijo e gritou pro colega que estava do outro lado: “Ô, dá um café pra tia aí!”. Foi como se ele tivesse me dado um tapa na cara. Não que eu nunca tivesse sido chamada de “tia”. Já fui algumas vezes, por guardadores de carros ou adolescentes pedindo dinheiro nos sinais de trânsito. Mas assim publicamente, com todo mundo ouvindo, e por um homem que já saiu da adolescência há pelo menos três décadas, foi a primeira vez.
Não devia, mas reagi na hora: “Tia?!”, perguntei. “Você me chamou de tia?”. Nesse momento, três “tios” que estavam tomando cerveja no balcão interromperam sua atividade e se prepararam pra acompanhar o barraco. Que, graças a Deus, não aconteceu. Posso ter perdido a juventude, mas a classe eu me esforço pra manter... Com uma calma que eu estava longe de sentir e um sorriso que eu não sei de onde saiu, continuei: “Sei que não sou garota mais. Aliás, estou longe disso... Mas qualquer mulher prefere ser chamada de bruxa a ser tratada de tia. Você pegou pesado, amigo. ‘Tia’ ninguém merece!”. Um dos “tios”, querendo melhorar a situação, soltou a segunda pérola da tarde: “Você ainda tá na ativa, né?”.
A cena durou uns cinco minutos e acabou com todo mundo rindo, inclusive eu (do quê, não sei). Só sei que do primeiro “tia” dito com letras maiúsculas a gente nunca esquece, ainda mais partindo de um homem que tem idade pra ser seu irmão. Acho que posso dividir minha vida em antes e depois dessa parada a caminho de Araxá. Não é à toa que estou com aquele pão de queijo atravessado até hoje. Amadurecer é uma coisa. Virar tia é outra – e muito, mas muuuiiito diferente...
|
|
|
 |
 |
 |
|
 |
|