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Leila Ferreira é uma jornalista
que adora colecionar histórias das loucuras e das
manias femininas. É autora do livro Mulheres:
Por que Será que Elas...?, da Editora Globo |
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com ela |
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| Mulheres: Por que Será que Elas...?
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Moda,
consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse
e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei
a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação
por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas
de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei
com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos
e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam
de verdade, parecem pura ficção |
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| Nós, Mulheres na Marie Claire |
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18/03/2008
ME ENGANA QUE EU GOSTO???
É uma imagem que desconcerta: uma mulher que foi traída pelo marido e se coloca ao lado dele, em um gesto explícito de apoio, enquanto ele confessa seu erro pra a imprensa do mundo inteiro. Não há como a gente ficar indiferente à cena da ex-primeira dama do estado de Nova York ouvindo em silêncio a confissão de culpa do marido, que foi obrigado a renunciar ao governo na última semana depois de ficar comprovado seu envolvimento com uma rede de prostituição de luxo. O ex-governador Eliot Spitzer teria gastado cerca de 80 mil dólares em programas com prostitutas e foi denunciado pelo New York Times - logo ele, que ficou conhecido quando era procurador-geral do Estado e perseguia com rigor implacável as redes de prostituição.
A imagem do ex-governador pedindo desculpas à nação foi notícia no mundo todo, principalmente pela hipocrisia de sua atitude: no espaço reservado dos quartos de hotéis, ele se entregava sem pudor aos prazeres que combatia na vida pública. Mas, tanto quanto o vexame de Eliot Spitzer, chamou a atenção a postura de sua mulher Silda. A pergunta que não quer calar, vendo as fotos do casal, é: o que leva uma mulher a aceitar essa " humilhação pública", conforme descreveram muitos jornais? Seria um amor incondicional, daqueles que passam por cima de tudo, até da traição? Ela é uma daquelas mulheres que aceitam qualquer negócio pra não perder o homem que amam? Ou é uma mãe que fica com o marido que a traiu por causa das três filhas do casal, ou seja, tudo menos desintegrar a família? Outras possibilidades: Silda Spitzer agiu assim por interesse, porque o marido é riquíssimo? Ficou com ele por conveniência? Prefere engolir um sapo gigante a perder a vida que tem? Ou é só uma daquelas almas abnegadas, altruístas, que levam a sério o compromisso de estarem juntos "na alegria e na dor"? Resumindo: ela é cúmplice ou vítima da situação?
Se a resposta fosse simples, o fato não estaria chamando tanta atenção. No olhar da ex-primeira dama registrado pelas fotos aparece uma mistura inacreditável de sentimentos. Raiva, ódio, mágoa, dor, tristeza, uma indignação contida... Fiquei me lembrando de uma passagem do livro "Labirinto da Solidão", do mexicano Octavio Paz, em que ele se refere a "esses seres bondosos e sinistros que são as mães e as esposas norte-americanas". No olhar e no gesto de Silda (nome que ela própria gosta de lembrar que significa deusa da guerra), quanto existe de generosidade e renúncia, inclusive ao amor-próprio? E quanto é cálculo e razão? Hillary Clinton tinha um projeto político e provavelmente engoliu a traição pensando nele. E Silda? E Verônica Calheiros? E Jaqueline Kennedy? Por que é que elas aceitam ser traídas em rede nacional? Se a infidelidade dentro de quatro paredes já dói, imagine o que é ser traída diante do planeta. Você aceitaria levar o casamento adiante? Posaria ao lado do marido num ritual de absolvição? E o que acha das mulheres que agem assim? Onde é que entram nessas histórias o poder, o amor, o sexo, os interesses, a famosa auto-estima, a religião? Fico com as perguntas. As respostas... deixo pra vocês. Quem se habilita?
Foto: Reuters |
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19/03/2008
Chifre trocado dói, sim...
Não resisto. Vou ter que dividir com vocês uma história que ouvi de um amigo há alguns anos. Quem contou a ele foi um dos jornalistas mais brilhantes e cáusticos que o Brasil já teve. Segundo ele, estava passeando por Nova York com um conhecidíssimo político brasileiro quando passaram por uma rua onde as prostitutas faziam ponto. O jornalista chamou a atenção do político pra beleza daquelas garotas de programa e a resposta que ouviu foi a seguinte: “Pena que eu não posso mais sair com essas garotas. Depois que você vira uma pessoa pública, como eu, só dá pra pegar as mulheres dos amigos...”. Desce a cortina.
Eu me lembrei da história ontem, quando escrevia aqui sobre a mulher do ex-governador de Nova York, que apoiou o marido acusado de envolvimento com prostitutas. Mais tarde, vi na TV que o vice que assumiu o governo ontem disse em seu discurso de posse que já teve casos extraconjugais (contou antes que a coisa viesse à tona pela imprensa), afirmou que a mulher (que estava a seu lado) já sabia de tudo e que – pasmem! – ela também já tinha sido infiel. Imagine se a moda pega. Pra cada cargo que a gente for disputar ou assumir, a cada emprego ou em cada currículo vamos ter que revelar nosso histórico sexual. Quantas aventuras? Lícitas ou ilícitas? Com conhecimento do(a) parceiro(a) ou sem? Você pagou pela transa ou não? Quantas vezes você foi infiel? Se você garante que se arrependeu?
Parece surreal, mas não estamos longe disso. Quando poder e sexo se misturam, o resultado pode ser qualquer coisa. Um político acha normal, e confessa com candura, que ele, também casadíssimo, só transa com as mulheres dos amigos. (Com um amigo desses, alguém precisa de inimigos?). O outro combate com o maior alarde as redes de prostituição e, entre um ataque e outro, se fecha nos quartos de hotéis em Washington com prostitutas que cobram até oito mil reais a hora. Já seu substituto, antes que lhe cortem a cabeça, aparece com sua mulher em público dizendo que na casa dele é chumbo trocado: os dois são infiéis. Acho que o resumo da ópera cabe em uma palavra: hipocrisia. Como somos hipócritas quando a libido entra em cena!... Quanto mais puritana a sociedade, maior a hipocrisia, claro. Mas todos nós corremos o risco de cair na tentação – não de sucumbir à força da libido (isso é problema de cada um), mas de esquecer a ética e o senso de ridículo na hora de tentar administrá-la. Freud sabia das coisas. Quem (ainda) não aprendeu somos nós.
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20/03/2008
COM AÇÚCAR E MUITO AFETO
Outro dia falei aqui sobre os cosméticos de chocolate que se propunham a substituir os ovos de Páscoa pra mulheres que não querem fugir da dieta nem nos feriados. Sheila, nossa leitora, mandou um comentário lembrando com saudades o tempo em que ia procurar os ovos escondidos por sua avó no jardim. Doces tempos aqueles, sem trocadilho. Em vez dos programas nos shoppings (sempre os shoppings...), mães e avós criavam rituais para as crianças que eram verdadeiras celebrações do afeto.
Uma professora que conheci recentemente em Perdizes (Minas Gerais) deu outro exemplo desses rituais. Ela me contou que, quando eram crianças, ela, seus irmãos e seus primos iam para a fazenda da avó nos feriados e nas férias e, quando chegavam lá, cada um deles ganhava um bolinho de fubá, feito pela própria avó e assado no fogão de lenha. As “formas” usadas eram latas de sardinha. “Nunca mais comi um bolo de fubá com aquele sabor”, disse a professora. “Aquele mini-bolo assado numa latinha só pra mim tinha gosto de carinho e de aconchego, de tudo que a gente espera encontrar numa família”.
Era o mesmo sabor das balas que minha mãe trazia escondidas dentro de sua sombrinha quando voltava do colégio onde dava aulas em Araxá (também Minas Gerais). Eu ia esperá-la ansiosa na porta de casa ou na esquina e ela, primeiro, dizia que naquele dia não tinha trazido nada. Era só pra criar suspense. Dali a pouco as balas que ela sempre ganhava das alunas ou do doceiro da porta do colégio apareciam e enchiam minhas tardes (e minha infância) de alegria.
Quem sabe nós, mulheres, voltamos a prestar um pouco mais de atenção a esses pequenos rituais de delicadeza, tão mais ricos em significados do que aquele brinquedo ou aquele par de tênis comprado na pressa de uma tarde de sábado? O brinquedo e o par de tênis estragam logo. O sabor dos ovos de Páscoa guardados no jardim, do bolo de fubá assado nas latas de sardinha ou das balas guardadas dentro de uma velha sombrinha permanecem. E nos alimentam emocionalmente pro resto da vida.
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24/03/2008
MELHOR SOZINHA
Uma vez perguntaram à feminista Gloria Steinen por que ela nunca tinha se casado. A resposta foi curta e grossa: “Porque não reproduzo em cativeiro”. Há mulheres um pouco mais complexas – aquelas que podem até reproduzir, mas não produzem em cativeiro. Sendo que cativeiro, aqui, nem sempre significa um relacionamento asfixiante e repressor. Às vezes, pelo simples fato de ter um namorado firme ou estarem casadas, algumas mulheres murcham e desbotam – perdem o viço e a cor. O marido pode ser ótimo, o namorado idem, mas elas se encolhem quando viram a metade de um casal.
Fazem programas só com Ele (com maiúscula, mesmo), se afastam das amigas, param de dançar porque Ele não gosta, não vêem mais seu tipo preferido de filme porque não coincide com os d’Ele, pensam três vezes antes de falar, não prestam suficiente atenção nos outros homens e vão virando mulheres apagadas e desinteressantes, mulheres “acasaladas” que não conseguem existir por inteiro. Aos poucos vão se esquecendo de como eram antes d’Ele: os lugares onde gostavam de ir, as músicas que ouviam, as risadas sonoras que davam, as viagens que faziam com as amigas e as opiniões que emitiam sem medo. Ao contrário das heroínas dos contos de fadas, essas mulheres só acordam quando o príncipe desaparece. Um final de namoro, uma viuvez, um divórcio e, depois da dor, elas renascem. Voltam a florescer e a produzir. Vão se lembrando aos poucos dos gestos que faziam antes d’Ele, do gosto que a vida tinha antes que Ele chegasse e reaprendem a viver sem ser pela metade. Voltam a ser mulheres interessantes.
Mas não são só elas, essas mulheres que se anulam, que parecem não funcionar muito bem no formato “casal”. Há também aquelas que simplesmente não gostam do tal formato. Não nasceram pro amor em forma de compromisso – aquele amor que costuma incluir prestação de contas, relógio de ponto, balancete e relatório anual. Amam, desejam, se apaixonam, mas não têm vocação pra ser casal. E que mal há nisso? Sempre achei que, da mesma forma que existem testes vocacionais pro trabalho, talvez devessem existir testes que avaliassem a vocação pro amor. Se nem todo mundo tem obrigação de ter vocação pra ser engenheiro ou analista de sistemas, por que se espera que todos nós – principalmente as mulheres – temos que carregar no DNA a vocação pro casamento nos moldes tradicionais? Por que não viver o amor de acordo com a vocação de cada um?
Hoje fiquei observando uma mulher de seus 35 ou 40 anos que renasceu depois de uma separação. Não, ela não está com outro, como costumamos dizer. Está só, mas tem se sentido muito bem com a própria companhia. Voltou a estudar, a sair com as amigas, a trabalhar com gosto. Aos poucos está se lembrando de como era antes do casamento e chegou à conclusão de que prefere ser daquele jeito. Há mulheres que são assim – ficam mais interessantes quando estão sós. Podem até estar amando, mas não fazem parte de um Casal (também com maiúscula). Quando o namoro ou o casamento vira cativeiro, ou porque você se deixa anular ou porque simplesmente não tem vocação pra coisa, talvez seja melhor tentar o lado B da vida. Quem disse que a felicidade tem que ser convencional?
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25/03/2008
MINHA FRANJA ME ODEIA
Poucas coisas tiram tanto uma mulher do sério quando uma franja indisciplinada – aquela franja que se recusa a colaborar. Luto com a minha há décadas e nunca consegui olhar pro espelho e dizer “Minha franja ficou ótima hoje!”. Não em casa. Pra ficar ótima, ela tem que freqüentar os melhores salões. Haja tempo e haja dinheiro. Você atravessa a cidade, enfrenta um mega-congestionamento, gasta uma nota e sai até feliz do salão, mas dali a pouco, bem perto da hora do seu compromisso, começa a chover ou o calor aumenta e você começa a suar. Resultado: a franja que o cabeleireiro domou volta a ser a franja que você tem dentro de casa: anelada, arrepiada, completamente anti-social. Aí não adianta a roupa linda ou a sandália fabulosa. Uma franja fora de controle tem o poder de liquidar com o resto do look. Ela demole o visual.
Às vezes sinto que a minha me detesta. Chego a conversar com ela no espelho, peço que coopere, explico a importância da ocasião. Em vão. Ela faz o que quer e quando quer. Não há escova progressiva, gel, mousse, spray ou pomada que a faça mudar de idéia. Acho que vai ser assim sempre. Vou estar velhinha, grisalha e ainda dando puxões na minha franja. É meu carma e carma não se escolhe - cumpre-se. Torcendo, claro, pra que nunca falte o dinheiro do salão.
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26/03/2008
AINDA O CANSAÇO...
Outro dia falei aqui sobre as loucuras que as mulheres vêm cometendo por causa do cansaço. Os comentários que chegaram mostram que a coisa está tão feia quanto eu pensava. Se você não leu, veja alguns exemplos:
1) A mãe da Cris fechou a geladeira com o gato dela (Cris) lá dentro. Quase que o bichinho se despede da família...
2) A Bernadete dormiu no meio da transa com o marido. Imagine como ficou a auto-estima do coitado.
3) A Vânia chamou o chefe de “mãe”.
4) A Kátia deu o leite que tinha acabado de esquentar pro filho para o cachorro e levou a ração do cachorro pro filho – que, claro, protestou no ato.
5) A Alexsandra, na saída do trabalho, esticou o braço e já ia deixando na portaria o dinheiro do pedágio que iria pagar a um quilômetro dali.
6) Uma leitora que não se identificou esquece a bicicleta na faculdade, as cópias na copiadora e conta que sua mãe guardou a bolsa na geladeira. Hereditário?
7) A Lílian, que não mandou comentário mas me parou na rua pra contar, foi levar a filha que tinha torcido o pé ao ortopedista e chegou lá mancando como ela. O médico não entendeu nada.
Diante de tantas loucuras, Valdilene (que já pediu pra falar com ela mesma ao telefone) sugere que a gente funde o “Clube das Mulheres Cansadas”. A sugestão é boa, Valdilene, mas não sei se vai funcionar na prática. A gente vai se esquecer de ir aos encontros, de fazer a ata das reuniões e de pagar as mensalidades. Umas não vão se lembrar dos nomes das outras e todas irão disputar o espaço da geladeira pra guardar bolsas, controles remotos e, eventualmente, gatos. E, na hora de atender o telefone, quem é que vai conseguir dizer “Clube das Mulheres Cansadas, bom dia”? É muito pra uma mente cansada...
Enfim, fica aqui a sugestão da Valdilene. E, caso o clube seja criado, por favor, associadas, lancem um movimento contra a pergunta mais incômoda da língua portuguesa: “LEMBRA DE MIM?”. Não!!! Mulheres cansadas não se lembram nem delas mesmas. Mulheres cansadas não se lembram de nada. E, convenhamos: isso não é uma pergunta. É uma cilada.
P.S. : Estou reunindo frases que as mulheres odeiam ouvir, tipo: “Você está mais cheinha...”, ou “As coisas aconteceram muito rápido entre a gente. Acho melhor dar um tempo” ou “Você vai com esta roupa?!”. Podem ser frases ditas por homens ou mulheres, aquelas perguntas ou aqueles comentários que nos tiram do sério, nos irritam profundamente. Você tem sugestões? Aguardo ansiosa!...
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27/03/2008
AS DUAS CARLAS
Nem se tivesse sido combinado. No mesmo dia, a primeira-dama da França, Carla Bruni, apareceu nos jornais do mundo todo em dois momentos radicalmente diferentes: no primeiro, ela chega ao Reino Unido, acompanhando o marido Nicolas Sarkozy numa visita oficial, vestindo o mais correto e sóbrio dos trajes - um casaco cinza Christian Dior, criado por John Galliano. O guarda-roupa da viagem foi discutido ao longo de vários encontros com o estilista e a ex-top model e cantora italiana desembarcou em solo inglês impecavelmente vestida. Mas as fotos da chegada tiveram que dividir espaço nos jornais com uma outra foto, que será leiloada pela Christie’s em Nova York: nela a mesma Carla Bruni aparece completamente nua. A fotografia foi feita há alguns anos para um ensaio da revista Vogue e, não se sabe como, o negativo agora chegou à casa de leilões.
O contraste entre as duas imagens é imenso: uma passa sensualidade e ousadia. A outra, recato, sobriedade, cumprimento às regras, discrição. Vendo as duas, fiquei pensando em quantas outras Carlas haverá, porque a impressão que se tem é de que são duas mulheres distintas. Existirão outras? Mas não, não é por aí. Acho que aquilo que os jornais mostraram não são duas mulheres ou duas personagens. Na verdade, todas nós carregamos uma legião de mulheres dentro de nós e a mulher que somos é a soma de todas elas. Nós, comuns mortais, que nunca posamos nuas pra Vogue e nunca nos casamos com o presidente da França, também temos um lado conservador e discreto e outro ousado e transgressor. Somos, ao mesmo tempo, a garota boazinha e a “bad girl”, a fina e a barraqueira, a séria e a vadia, a eufórica e a deprê. Ninguém é uma pessoa só. Só que, a cada momento, prevalece um lado, ou escolhemos mostrar um certo lado pro mundo. Às vezes, exibimos nossos melhores momentos. Outras vezes, são os piores que vêm à tona. Sempre brinquei que, se “Minas são muitas”, como disse Guimarães Rosa (e todo mundo acha o máximo), por quê que eu não posso ser? A coerência absoluta é um tédio.
O que ocorreu com a primeira-dama da França é que nossas muitas personalidades costumam ficar guardadas em arquivos diferentes - dependendo da ocasião, a gente abre um deles – e, no caso dela, a imprensa publicou, ao mesmo tempo, o conteúdo de dois arquivos que não podiam ser mais distintos. O resultado chocou muita gente. Mas, num mundo em que, como diz a jornalista Bárbara Gancia, a única coisa que ainda consegue causar choques é a energia elétrica, é salutar levar uns sustos de vez em quando. A gente pára, pensa, se reconhece e se conhece melhor – um exercício que não costuma fazer mal a ninguém.
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28/03/2008
APAIXONADA POR UM ROBÔ
A notícia é destaque na imprensa e nem poderia ser de outro jeito. Imagine você se apaixonar e ter relações sexuais com um robô: loucura? Não para o inglês David Levy. Não, ele não está tendo um caso com um robô! Calma lá! David Levy é um especialista em inteligência artificial que defendeu uma tese afirmando que, até 2050, os robôs se parecerão tanto com os humanos, tanto na aparência quanto no comportamento, que muitos de nós irão se apaixonar e ter relações sexuais com eles. O estudo é sério, a tese foi defendida na Universidade de Maastricht, na Holanda, com o título da “Relação íntima com um parceiro artificial” e a (também séria) editora Harper Collins se baseou nela pra lançar o livro “Love and Sex with Robots”.
O que acontece é que os avanços nessa área têm sido enormes por causa da preocupação de alguns países do Primeiro Mundo com o envelhecimento de suas populações. Eles querem produzir robôs capazes de assistir os idosos e os doentes e estão investindo tudo em pesquisa pra que eles se assemelhem o máximo possível com os seres humanos. Isso inclui a capacidade de traduzir e reagir aos nossos sentimentos. Ou seja: teremos robôs inteligentes, ternos, sensíveis, gentis, sempre prontos pra nos ouvir, nos fazer carinhos, dispostos a ver conosco os filmes da nossa preferência – e não é mais ou menos isso que esperamos de um parceiro? As mulheres, que se apaixonam com muito mais facilidade do que os homens (eles são mais rápidos no quesito desejo em estado puro), não vão ter a menor dificuldade pra transformar robô em príncipe encantado. Imagine um robô com a voz e os olhos do Clive Owen e a sensibilidade do.........de quem?..........não consigo pensar num homem com sensibilidade exacerbada... Brincadeira, existem vários. Só que moram longe ou são muuuuito casados.
Enfim, esse é o panorama que nos aguarda. E não resisto a um comentário maldoso: muitos de nós, homens ou mulheres, nem irão notar. O que tem de gente se relacionando com parceiros que vivem no piloto automático... Talvez um robô sensível seja melhor do que um humano desligado, pra não dizer desatento, distante, desapaixonado.
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31/03/2008
FALAR DE DIETA É FALTA DE ASSUNTO
Mulheres que só falam de crianças e empregadas: tem coisa pior? Tem: mulheres que só falam de dietas. Talvez não seja pior, mas é tão chato quanto. Principalmente quando se está num restaurante, num bar, numa recepção ou num encontro na casa de amigos. Não é hora! Aliás, hora de falar de dieta é quando se está no consultório do endocrinologista ou do nutricionista ou no vestiário da academia (vá lá...). Mas quando estamos com amigos, parceiros, parentes, colegas de trabalho, por que alugar os pobres coitados falando de nossos quilos, nossas restrições calóricas, os doces que cortamos, a distância que estamos mantendo dos carboidratos, a ricota do nosso café da manhã e a eterna saladinha? Nós, mulheres, avançamos tanto, lemos tanto, aprendemos tanto nos últimos anos. Não é possível que a gente não tenha assuntos mais interessantes pra tratar.
A dona de um dos melhores restaurantes de São Paulo estava me dizendo que uma das cenas que mais vê é aquele grupo de amigas que chega pra almoçar, examina o cardápio só falando de calorias e depois almoça conversando só sobre dietas e trocando telefones de endocrinologistas. Pra ela, que, além de chefe de cozinha é psicóloga, é uma dupla frustração ver seus pratos deliciosos serem reduzidos a índices calóricos e constatar que mulheres que poderiam estar falando de uma infinidade de temas interessantes preferem reduzir seu repertório a uma fatia insignificante da vida.
Outro dia uma leitora do nosso blog, a Luciana, comentava aqui o quanto é chato ver mulheres falando de dieta num churrasco de domingo. Concordo, Luciana. Acho que, além de chato, é falta de imaginação. E, geralmente, quem fala é quem menos precisa de emagrecer. Com isso, acaba irritando profundamente as que de fato estão acima do peso mas se permitiram desfrutar de uma picanha no churrasco com os amigos.
Faço aqui o “mea culpa”. Vivo eternamente dois ou três quilos acima do peso ideal e sou mestra em falar que preciso emagrecer perto de quem está 10 ou 15 quilos acima do peso. Falta de sensibilidade, falta de delicadeza, falta de assunto – como é que a gente pode escorregar assim? E a gente escorrega. Talvez porque nossa cultura decidiu que magreza é sinônimo de felicidade e a gente, mesmo sabendo que não é, vive esta espécie de obsessão com a forma física.
Acho que vale a pena a gente se esforçar pra sair dessa. Vamos falar sobre física quântica, o sorriso do Gianechini, aquecimento global, a vida depois da morte – qualquer assunto que não seja balança, espelho, calorias, quilos, centímetros. E, principalmente quando estivermos sentadas em volta de uma mesa – qualquer mesa, de bar, restaurante, nossa casa, casa de amigos – fica proibida a palavra “dieta”. Se a vontade de pronunciá-la for muito forte, respire fundo, conte até 150 ou, melhor ainda, se obrigue a ficar de boca fechada mastigando o que houver de mais saboroso na mesa. E a palavra “culpa”, que inevitavelmente você vai querer pronunciar em seguida, também fica proibida. Até segunda ordem. Até a gente aprender a viver com mais leveza – não do corpo, mas de espírito.
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01/04/2008
VOCÊ ACREDITA EM ALMAS GÊMEAS?
Sabe a metade da laranja, o jarro que forma o par, o homem que você tem certeza que veio ao mundo só pra ser seu e que, sem ele, a vida perde o sentido? Sabe, não sabe? Agora, o que eu quero saber é se você acredita nele, ou melhor, se acredita que essa história de fato existe. Vou escrever sobre o tema das chamadas almas gêmeas pra minha coluna na Marie Claire e gostaria muito de incluir histórias que vocês, nossas leitoras (e já minhas amigas, por que não?), têm pra contar.
Você já encontrou a sua? Quer encontrar? Ou acha que isso tudo é balela, que a tal da alma gêmea não existe? Ou quem sabe existem várias, que vão se encaixando ao longo das nossas vidas? Uma vez ouvi uma frase que eu adorei, me parece que foi numa peça de teatro, que dizia mais ou menos assim: “Com tanta gente neste mundo, é muita coincidência a minha alma gêmea morar na minha cidade!...”. E tem outra frase que eu amo, que foi dita pela Cher: “Enquanto o homem certo não aparece, vou me divertindo com os errados”. Você acredita em um homem certo? Já pensou que tinha encontrado e descobriu que o príncipe em questão era um sapo? Já aconteceu de você jurar que tinha encontrado a alma gêmea e, hoje, alguns anos (e algumas decepções) depois, nem se lembra que a criatura existe? Enfim, como é que você vê essa história toda de alma gêmea?
Casos engraçados são particularmente benvindos... As tragicomédias do cotidiano amoroso superam qualquer ficção e nós, mulheres, atraímos esses enredos desastrados, às vezes desastrosos. Melhor rir deles e de nós próprias do que ficar pelos cantos lamentando e nos fazendo de vítimas. Mande seus exemplos tragicômicos da procura ou dos supostos encontros com a alma gêmea. Rir costuma ser a melhor vingança e, seguramente, ainda é o melhor remédio.
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