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Leila Ferreira é uma jornalista
que adora colecionar histórias das loucuras e das
manias femininas. É autora do livro Mulheres:
Por que Será que Elas...?, da Editora Globo |
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com ela |
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| Mulheres: Por que Será que Elas...?
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Moda,
consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse
e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei
a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação
por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas
de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei
com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos
e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam
de verdade, parecem pura ficção |
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| Nós, Mulheres na Marie Claire |
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03/04/2008
LISTA DE PRESENTES
Hoje é meu aniversário. Não, não tenho o menor pudor de dizer. Adoro fazer aniversário e saio contando pra todo mundo. Começo pelo porteiro do prédio, depois falo com o motorista do táxi, ligo pras amigas que se esqueceram... Deve ser carência das bravas. Quero abraços, beijos, carinho. Ou talvez seja só alegria mesmo por estar viva. Começo o dia agradecendo a Deus e depois peço a Ele um punhado de presentes. Hoje foi assim. Acordei cedinho, fui pra cozinha fazer meu café e lá mesmo acendi uma vela e comecei a desfiar a longa lista de pedidos. Nada muito nobre, nada típico daquelas almas magnânimas, que querem de presente um mundo mais justo, um planeta onde não falte água e onde todos vivam felizes. Quero isso tudo, mas hoje, dia do meu aniversário, me dou o direito de pedir coisas bem mais prosaicas e me permito ser bem egoísta. O que eu quero de presente, pra começo de conversa, é:
- Muitos filmes do Clive Owen pra assistir. - Muitas xícaras de café recém-coado. - Algumas caipivodcas de frutas vermelhas. - Um personal trainer pra chamar de meu (sim, eu sei que é redundância) - Muitas manhãs de sol em São Paulo. - Muitas tardes de chuva com cheiro de terra em Araxá. - Muitas noites de forró em Belo Horizonte. - Muitos beijos bem dados. - Uma semana na Provence, com direito a piqueniques nos campos de lavanda. - Uma franja lisa, faça o tempo que fizer. - Uma pilha de livros policiais pra devorar. - Uma trilha sonora que inclua Bill Evans, Coldplay, Amy Winehouse, o melhor dos anos 60, muito forró pé de serra e muita bossa-nova. - Uma lei que proíba qualquer tipo de dieta pra emagrecer. - Versos da Adélia Prado. - Conversas com minha mãe. - Uma mesa de lanche pra dividir com minhas cunhadas e sobrinhas e morrer de raiva porque todas falam ao mesmo tempo. - Uma tarde de sábado com meus irmãos. - Uma conversa interminável com as amigas. - Um sapato que não aperte. - Um xampu que dê certo. - O cheiro de um bolo recém-assado. - O toque de um homem que a gente ame. - O gosto da vida vivida sem medo.
Será que é pedir demais??? Talvez sim, mas não custa tentar...
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04/04/2008
COITADAS DAS FEMINISTAS!
Tenho feito palestras por toda parte falando sobre a condição feminina e, onde quer que eu vá, tem sempre uma mulher, ou algumas mulheres, na platéia que se manifestam, em tom de brincadeira, sobre a raiva que elas têm das feministas. Explica-se: o que elas alegam é que não agüentam mais de cansaço, tendo que acumular tantas tarefas, e atribuem esse cansaço aos papéis que a mulher passou a desempenhar depois das conquistas feministas. Rose, nossa leitora, mandou um comentário dizendo que nunca pensou que fosse falar assim, mas que gostaria de virar dondoca. Está exausta de tanto correr pra levar o filho à escola, chegar ao trabalho, almoçar com o filho, “correr pra tudo”, como resume ela. Assim como Rose, milhares de mulheres vêm se permitindo fantasiar com a vida pré-feminismo, em que o chamado sexo frágil ainda era visto como frágil e ficava protegido das intempéries do mundo ali no território doméstico. Acho que tem um texto na internet que trata exatamente disso. Não li, mas uma amiga me falou sobre ele.
Entendo o que a Rose e tantas outras mulheres estão sentindo. Às vezes dá vontade na gente de ficar à toa, sem ter filhos pra olhar, casa pra cuidar, relatórios da empresa pra fazer, congestionamentos de trânsito pra enfrentar. Como deve ser bom ir ao cinema à tarde, fazer massagens, tomar chá com as amigas... Bom demais, como dizemos nós, os mineiros. Uma das mulheres que entrevistei para o meu livro disse que sonha com umas férias em que não ouça três coisas: “Bem!”, “Mãe!” e “Dona Andréia!”. O lugar não importa, ela alega, desde que esteja longe das demandas constantes da empregada, do marido e dos filhos – além das demandas do seu emprego, claro.
Que estamos exaustas, sabemos todas. Mas não dá nem pra imaginar o que seria de nós sem o direito à liberdade que a revolução feminista nos assegurou. Imagine ter que “prestar contas pro marido” (vou fingir que nenhuma mulher faz isso hoje).Imagine não poder trabalhar fora, não ter autonomia financeira, não transar antes do casamento, atrelar o sexo à procriação, ter medo de ser mal-vista, mal-falada, mal-compreendida, ser obrigada a manter um casamento que já se acabou... isso só pra ficar em alguns exemplos.
Não. Voltar atrás, nem pensar. O que temos que fazer é descobrir formas de combinar liberdade e autonomia com leveza e prazer. Não sei exatamente como. Mas sei que não podemos continuar com a sobrecarga que enfrentamos hoje. Talvez tenhamos que ser menos, muuuuito menos perfeccionistas. Não é preciso fazer tudo bem feito. Algumas coisas vão ter que sair do jeito que der – e olhe lá! Também é preciso aprender a dizer aquele velho “não”: não vou ao aniversário da fulana, e ela vai ter que entender; não vou pintar o cabelo hoje, porque estou cansada; não vou ao supermercado, porque hoje não tenho forças pra enfrentar fila; não vou limpar o apartamento porque hoje é sábado e mereço um descanso! Se o marido ou o companheiro não dividem as tarefas domésticas e as responsabilidades, talvez seja hora de subtraí-los da sua vida. Se você não tem companheiro ou marido, mais uma razão pra pegar leve. Você não tem que ser mãe perfeita, dona de casa exemplar, operária padrão e mulher fabulosa, a não ser que não se incomode de ter um enfarto ou um colapso nervoso e perder os melhores anos de sua vida.
E abandone pra sempre a vocação pra vítima que nós, mulheres, temos mania de assumir. Não é o caso da Rose, que se queixa do cansaço mas diz que está procurando uma saída. É o caso daquelas “sofredoras” que fazem malabarismo pra dar conta de todas as tarefas e depois desfiam suas queixas e exibem seu cansaço pra despertar, ao mesmo tempo, pena e admiração. Antes de culpar as feministas, avalie como você vem lidando com sua sobrecarga. Tente se cobrar menos, peça ajuda sempre que for necessário, escolha companheiros sensíveis (existem alguns no mercado) e, quando achar que nós, mulheres, éramos felizes e não sabíamos, converse com sua avó, sua mãe ou suas tias. Quem viveu ou ouviu histórias da era pré-feminismo, tem muito o que contar...
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07/04/2008
CELULARES : MODO DE USAR
Não, eu juro que não agüento mais! Não agüento, não quero e não mereço ouvir todas as conversas de celular que tenho ouvido nas filas, no cinema, nos restaurantes e bares, nas salas de espera de médicos e dentistas, no cabeleireiro, nos velórios (sim!) e, acima de tudo, nas salas de embarque. Foi-se o tempo em que as salas de embarque eram lugares onde você podia ler um livro, pensar na vida, reler uma carta, sentir saudades. Hoje o que se tem é um concerto enlouquecido de dezenas de vozes falando ao mesmo tempo, cada uma tentando se sobrepor à outra, e cada uma falando de coisas mais irrelevantes (pra nós, que estamos ouvindo) do que a outra.
Tenho viajado muito, e os vôos, como se sabe, continuam atrasando. No final do mês, fazendo as contas, às vezes constato que passei 10 ou 15 horas nas salas de embarque. Poderiam ser horas de leitura prazerosa, mas, não – são10 ou 15 horas ouvindo detalhes das vidas profissionais, amorosas, sexuais, familiares e sociais de pessoas que não conheço. Há conversas constrangedoras, chatas, irritantes – não consigo me lembrar de nenhuma que tenha me despertado interesse e a vontade de continuar ouvindo. Olho pro livro que está nas minhas mãos, tento me concentrar, mas não dá. Além das vozes altíssimas proferindo irrelevâncias, existe uma coreografia singular: os viciados em celular não conseguem ficar parados. Eles falam andando, se deslocando num espaço de 10 metros quadrados como se estivessem num palco gigantesco. Ficam passando na nossa frente, num dois-pra-cá, dois-pra-lá que nos leva à loucura.
No cabeleireiro, essa coreografia não existe. Afinal, as mulheres têm que estar próximas do secador, ou com as mãos estendidas pra manicure, o corpo preso à mesa de depilação ou os pés mergulhados na água. Mas o que falta em movimento muitas compensam aumentando o volume da voz e o número de palavras. Como falam! E estragam a unha recém-pintada, atrasam o ritmo da escova, fazem cabeleireiros e manicures se atrasar.
Podem me chamar de chata. Podem dizer que sou neurótica e intolerante. Aceito todas as críticas. E adoraria ser um daqueles espíritos relaxados que conseguem se abstrair de qualquer barulho, se desligar. Mas não tem jeito. O concerto dos “junkies” de celular nunca vai ser música pros meus ouvidos. Torço pra que eles falem menos. Rezo pra que falem baixo.E tenho vontade de servir lanches pra todos pra ver se ficam de boca fechada (ao menos pra mastigar). Devo ser muito chata, mesmo. Mas acho que espaços públicos não combinam com conversas privadas. E nossas vidas não são nenhum enredo de Hollywood pra despertar interesse em platéias que não nos conhecem. Ninguém tem obrigação de ouvir a descrição da reunião da nossa empresa, o fim do nosso namoro, o resultado do nosso exame de sangue ou as instruções que estamos passando pra nossa empregada. Me desculpem, mas nosso dia-a-dia só interessa a nós mesmos. Achar que os outros querem ouvir tudo que nos acontece é muita pretensão da nossa parte...
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08/04/2008
ENTRE AMIGAS
Outro dia, saí com três amigas. E você deve estar se perguntando: e daí? O que é que tem de mais nisso? Nada de mais. Sair com as amigas é o programa mais comum, mais corriqueiro, menos original que existe. Talvez por isso seja tão subestimado. Achamos o máximo sair com um homem que nos interesse – o paquera, o ficante, o namorado, o marido. A gente capricha na produção do visual, tenta não se atrasar, planeja o encontro, cerca de expectativas. Quando saímos com as amigas, não. É tudo mais casual, mais relaxado, na base do programinha descompromissado, que nada promete em matéria de grandes emoções. Talvez por isso seja tão prazeroso.
Nesse dia em que nós quatro saímos, passamos umas três horas tomando vinho, saboreando os melhores tira-gostos, falando de viagens, livros, homens, planos, sonhos e todas aquelas bobagens que nós, mulheres, amamos e que nenhum homem tem paciência de escutar. Rimos muito, conversamos sem medir as palavras e voltamos felizes pras nossas casas. Antes de dormir, fiquei pensando em como é bom fazer programas assim: indo direto do trabalho, sem trocar de roupa, sem fazer escova, sem criar expectativas românticas, sem ter que falar coisas que impressionem ou agir de forma pensada. Acho que encontros assim são terapêuticos. A gente se descontrai, se ajuda, uma dá o conselho que nos faltava, a outra diz aquela frase que a gente precisava ouvir, a terceira nos faz rir como há muito tempo não ríamos. Fale a verdade: quando você sai no “formato casal”, costuma ser assim?
Acho que na agenda feminina, cada vez mais cheia, não pode faltar espaço pra esses encontros com as amigas. Se o namorado não gosta, repense o namoro. Se o marido implica, reveja as bases do casamento. Tem conversa que só acontece com as amigas. Olhares que só elas traduzem. Brincadeiras que só elas entendem. Lembranças que fazem parte do mesmo passado. Abrir mão do prazer de compartilhar essas coisas é viver de forma incompleta. A vida fica mais pobre e, definitivamente, muito mais sem-graça.
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09/04/2008
CUSTA DIZER “BOM DIA”?
Foram duas vezes no mesmo dia. Primeiro, eu estava na garagem do meu prédio, tirando umas coisas do carro, quando uma moradora de uns 50 anos de idade passou do meu lado, eu olhei pra ela pra cumprimentá-la e ela continuou olhando pra frente, como se eu fosse invisível, apesar de quase ter esbarrado em mim. Pensei: essa está brigada com a vida. Depois foi no elevador. Entrei, cumprimentei uma moradora de uns 20 e poucos anos que estava lá sozinha, ela me olhou e não respondeu. Eu não acreditei. Como é que pode você estar sozinha dentro de um elevador, alguém entrar, sorrir, cumprimentar e você não responder?
Você deve estar pensando que, de duas, uma: ou eu sou uma péssima vizinha, odiada pelos outros moradores, ou meu prédio é um reduto de pessoas mal-educadas. Nenhuma das opções anteriores. Moro aqui há cinco meses, nunca tive problemas com quem quer que seja, não faço barulho, não tenho cachorros, ou seja, não há nenhuma razão pra deixarem de me cumprimentar. Quanto ao perfil do prédio, é absolutamente normal. Há pessoas simpáticas, os funcionários são super agradáveis e, pra morar aqui, ninguém precisa ter antecedentes de falta de educação.
Por que será, então, que duas mulheres, uma jovem e outra nem tanto, escolhem agir com tanta falta de gentileza? E por que será que mais e mais pessoas estão agindo assim? Eu fiquei me lembrando de algo que o Max Gehringer disse: que hoje as pessoas saem de casa mais preparadas pra serem assaltadas do que pra receber um sorriso. É verdade. Se alguém é assaltado, a reação é de susto, trauma e, ao mesmo tempo, a constatação de que, infelizmente, o normal, hoje, é a gente passar por isso. Todos são ou conhecem alguém que foi assaltado. Mas se você sai de casa e alguém que você não conhece sorri pra você, a reação é: “Que é isso?! Esse cara surtou? Essa mulher tá louca? Nunca vi essa pessoa na minha vida!”. Um sorriso, hoje, nos surpreende mais do que um assalto.
É esse o mundo que nós queremos pros nossos filhos? Um mundo onde não existam mais “obrigado”, “bom dia”, “por favor” e “com licença”? Um mundo onde vizinhos não se olhem ou não se cumprimentem? Um mundo onde a gente passe a ter medo até de sorrir? Acordem, vizinhas! Ainda dá tempo.
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10/04/2008
VIVER É PRECISO
Sugestão de leitura: o livro “Manual do hedonista: dominando a esquecida arte do prazer” (editora Rocco), do americano Michael Flocker, autor de “O metrossexual – guia de estilo”, que fez o maior sucesso. Não é o que parece, ou o que o título sugere. O livro não é nenhum receituário pra aumentar o prazer na cama: é uma reflexão, deliciosamente bem-humorada e bem-escrita, sobre a importância de se aumentar o prazer na vida. O princípio do prazer, segundo o autor, se encontra “à beira de extinção”. Ele explica: “Obcecados com a idéia de ficarmos mais ricos, mais magros, mais bem-sucedidos e, por incrível que pareça, mais jovens, milhões de nós nos privamos todos os dias daquilo que, iludidos, acreditamos estar correndo atrás – viver bem”.
Flocker fala sobre nossa neura com a saúde e a estética, a “demonização dos carboidratos” e o “fascismo alimentar”, a nossa incapacidade de nos desligarmos da tomada e relaxar, de curtir um lazer não-programado, sem agendas, e a disciplina com que temos vivido pra nos sair bem em tudo. Alguns conselhos dele? Apaixonar-se perdidamente (“Segurança emocional não é tudo isso que se diz”, alega). Nadar depois de comer. Ler deitado na rede. Flutuar no oceano. Namorar alguém de 19 anos. Tomar coquetéis de tardinha.
Leve, muito engraçado e, ao mesmo tempo, completamente pertinente, é um livro que nos obriga a pensar nesse nosso enlouquecido estilo de vida atual. Onde é que ficou a simplicidade? Onde é que ficaram os pequenos prazeres que, somados, davam tempero às nossas vidas? Quando passarmos pro andar de cima (ou pro mezzanino, pra ficar mais elegante), que diferença vai fazer o quanto corremos, nos antenamos e “fizemos bonito” pros outros verem?
Desligue o celular e o laptop, abra um vinho, ponha o melhor CD pra tocar e mergulhe neste manual - às vezes politicamente incorreto e sempre filosoficamente perfeito. Acho que você vai gostar.
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14/04/2008
SILÊNCIO CONJUGAL
Não há nada mais melancólico do que a imagem de um casal almoçando ou jantando num restaurante sem trocar uma palavra. Não é aquele silêncio confortável dos que não precisam falar pra estar juntos. Às vezes os diálogos mais ricos são travados sem que se diga nada. Não é desse silêncio que estou falando, e nem daquele que acontece quando o casal acabou de brigar ou “está brigado” e mesmo assim resolve sair. O silêncio a que eu me refiro aqui é aquele que nasce da lacuna afetiva, do abismo que se forma quando já não há o que dizer. Os sentimentos deterioraram ou simplesmente desbotaram e você se vê diante de um estranho ou uma estranha que mora na sua casa, dorme no seu quarto, às vezes é o pai ou a mãe de seu filho, mas já não inspira em você a menor vontade de conversar. Falta assunto, falta interesse, falta o desejo genuíno de saber o que a outra pessoa está sentindo, o que ela acha daquela notícia que está nos jornais, a próxima viagem que ela pretende fazer.
Fico tentando imaginar como é que alguns casais conseguem passar anos assim, nesse silêncio verbal que nada mais é do que o reflexo de sentimentos que há muito silenciaram. Cumprem a triste rotina dos restaurantes de domingo sem ter nada que os una além de um ou outro comentário sobre as opções do cardápio ou a qualidade dos pratos. O que mais me impressiona é o olhar desses casais: um olhar absolutamente distante, de quem está ali de corpo presente, enquanto a alma passeia por outros cenários, outros personagens, outros tempos.
Será que vale a pena compartilhar um almoço com alguém com quem já não se compartilha a vida? Ou, invertendo a pergunta: será que vale a pena compartilhar a vida com alguém com quem já não se consegue desfrutar nem um almoço? Quando o ponto do filé passa a ser a grande inspiração dos diálogos dominicais, talvez seja hora de consultar outros cardápios, descobrir novos sabores. Casais que não conversam normalmente já deixaram de ser casais há muito tempo e não perceberam. Ou, o que é mais triste, perceberam mas decidiram continuar com os almoços melancólicos de domingo. Será que vale a pena viver assim? Acho que dividir a casa, a cama e as mesas de restaurantes com alguém com quem já não se tem nem o que dizer é fazer da vida algo muito menor, muito mais pobre, do que ela pode ser. Esse silêncio que nasce da falta de amor ninguém merece. Ninguém mesmo.
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15/04/2008
A PRIMEIRA JABUTICABA A GENTE NUNCA ESQUECE
Acabo de realizar um sonho antigo, tão antigo e tão sonhado que a ficha se recusa a cair: comprei uma casa em Araxá, interior de Minas, cidade onde eu nasci e onde ficaram todas as minhas referências – familiares, culturais, emocionais. Já morei nos Estados Unidos, no México, na Inglaterra, em Brasília, em Belo Horizonte e há poucos meses me mudei pra São Paulo. Tantos endereços... mas Araxá sempre foi o porto seguro, o território dos afetos, a paisagem onde a alma se alarga e o coração descansa. Faltava um canto meu, neste lugar onde dobro as esquinas sem medo de me perder. Agora esse canto existe. É uma casa silenciosa e ensolarada, com espaço pra guardar muitas memórias, tirar sonhos de dentro das pastas, me escorar em paredes que acolhem, poder dormir sossegada. Mas o melhor de tudo é que essa casa que agora é minha tem uma jabuticabeira, e jabuticabeira é coisa preciosa, coisa rara, que eu nunca imaginei que pudesse fazer parte da minha vida e da minha casa.
A idéia foi do jardineiro, Hamilton, que, se morasse em cidade grande, seria chamado de paisagista e disputado pelos bacanas. Um artista do verde, que desenha canteiros como se estivesse compondo, atento a cada nota, zeloso de cada compasso. Hamilton me perguntou se eu gostaria de uma jabuticabeira no meu jardim. Como?! Eu achava que jabuticabeiras brotavam onde escolhiam brotar e, se plantadas, demorariam anos pra virar árvore. Não, ele garantiu, ela já vai chegar grandinha e logo, logo começa a produzir. Fingi que acreditava e concordei.
Ontem minha jabuticabeira chegou e foi plantada bem em frente ao meu quarto. Quando abri a janela, lá estava ela e, bem agarrada ao tronco, como se estivesse com medo de cair, havia uma única jabuticaba. Verde, brilhante, cheia de promessas. A primeira fruta da minha casa. Comecei a chorar, claro, para constrangimento do meu jardineiro que agora sei que também é terapeuta e adivinhou o quanto eu precisaria, nesta volta ao começo, de algo que frutificasse.
Hoje me levantei e fui correndo pra janela, pra ver se a jabuticaba tinha resistido à chuva. Ela estava ainda mais brilhante e, não sei se é impressão minha (ou vontade), mas acho que já começa a amadurecer. Logo outras virão, pra fazer companhia. Vou ter uma tela de muitas cores na janela do meu quarto.
E pensar que, em alguns momentos, eu cheguei a achar que a vida estava se acinzentando, perdendo o viço e a graça. Não, a vida brota e re-brota quantas vezes for preciso. E, claro, quantas vezes a gente deixar.
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