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Leila Ferreira é uma jornalista
que adora colecionar histórias das loucuras e das
manias femininas. É autora do livro Mulheres:
Por que Será que Elas...?, da Editora Globo |
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com ela |
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| Mulheres: Por que Será que Elas...?
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Moda,
consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse
e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei
a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação
por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas
de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei
com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos
e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam
de verdade, parecem pura ficção |
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| Nós, Mulheres na Marie Claire |
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16/04/2008
AINDA O SILÊNCIO CONJUGAL
Acho que poucas coisas na vida são tão complexas e tão delicadas quanto o equilíbrio que se estabelece ou deixa de se estabelecer entre um casal. Uma infinidade de variáveis interfere na vida a dois e administrar essas variáveis a nosso favor exige uma flexibilidade e uma capacidade de fazer malabarismos que só os artistas do Cirque du Soleil costumam exibir – e eles passam uma vida treinando pra chegar naquele ponto.
Quando eu disse aqui que não há nada mais melancólico do que o silêncio de certos casais nos almoços de domingo, e sugeri que às vezes é melhor sair em busca de outros caminhos, outros enredos, outros almoços, não quis dizer com isso que, quando o casal deixa de conversar, é porque o amor acabou (e a relação idem). Nem sempre o silêncio entre duas pessoas é sinal de desamor. Concordo com a Alessandra, a Virna e as duas leitoras que não se identificaram e argumentam que é preciso tentar, ter esperança, insistir com o parceiro que não conversa mais e investir no futuro da relação. Concordo, mas em termos.
Acho que, quando um relacionamento não vai bem, vale tentar quase tudo – quase... Porque há limites que, se transpostos, só servem pra aumentar a desesperança e a dor. Por exemplo: um marido que agride a mulher, física ou moralmente, vale o investimento? Uma mulher que despreza, diminui, maltrata o companheiro, merece que ele passe 20 anos ao lado dela, tentando conquistar seu respeito e seu amor? Um parceiro que se senta à nossa frente nos almoços de domingo (de muitos domingos!...) e parece não nos ver, muito menos nos ouvir, não porque esteja com problemas mas porque já não sente nada por nós (ou vice-versa), merece que nos torturemos pra tentar reconquistar seu olhar, sua escuta, seu interesse (já morto) por nós?
Quando falo sobre os casais que não conversam mais, eu me refiro àqueles que já tentaram muito, tentaram quase tudo, mas estão vazios por dentro – o assunto entre eles acabou (em todos os sentidos). Muitas vezes, não têm a menor idéia por quê. Talvez porque o amor eventualmente acabe, como mostra Paulo Mendes Campos numa crônica chamada “O Amor Acaba” (acho) – um texto implacável, mas de uma beleza e uma honestidade que comovem.
Torço, amigas, pra que o silêncio dos domingos seja sempre reversível, contornável – o silêncio dos inocentes, que não sabem como se calaram e querem muito reencontrar as palavras que sustentam o amor. Quando isso acontece, é mágico. Quando não acontece, aí, sim, acho que vale a pena buscar outros cenários e outros sabores.
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17/04/2008
FOTO DE PASSAPORTE
Você conhece alguma mulher que diz que amou a foto que ela fez pra carteira de identidade, o passaporte ou a carteira de motorista? Se a resposta é sim, de duas, uma: ou sua amiga tem uma auto-estima admirável ou ela precisa ir com urgência ao oftalmologista. É, porque não há nada mais demolidor, mais arrasador da auto-estima do que uma foto de documento. A humorista americana Erma Bombeck dizia que numa viagem, quando você começa a ficar parecida com a foto do seu passaporte, é porque já está na hora de voltar pra casa. Fotos de passaporte são registros dos nossos piores momentos, mesmo quando acreditamos que o momento em questão é ótimo: elas expõem o cansaço que estamos sentindo, a tristeza que não sabíamos que estávamos sentindo, a frustração e a raiva que estavam escondidas dentro de nós.
Sempre foi assim, mas agora, com os próprios funcionários da Polícia Federal tendo que fazer as vezes de fotógrafo, com um equipamento básico, tempo escasso e sem direito a photoshop, a coisa piorou. Você olha pra foto e tem vontade de cancelar a viagem. Pensa que talvez fosse melhor investir o dinheiro num tratamento com a dermatologista, um novo corte de cabelos, um peeling ou, pra quem gosta, mais um botox. Há pouco tempo renovei meu passaporte em Belo Horizonte e contei com a paciência infinita do funcionário da Polícia, que fez umas quatro tentativas. Ele via que a foto estava péssima (tradução: eu estava péssima), ficava com pena e fazia outra. Até que chegou à conclusão de que não havia jeito e me consolou com a seguinte frase: “Não liga não. É só o funcionário da imigração que vai ver mesmo...”. Ou seja: esconda esse passaporte de qualquer outra pessoa.
Poucos dias depois da ida à Polícia Federal, fui tirar uma segunda via da carteira de identidade (tinha perdido a minha, com uma foto de uns 10 anos atrás). Fiz uma maquiagem básica em casa, uma escova no salão, pensei em todas as coisas boas que conheço (e são muitas) pra sair com uma expressão relaxada e... você acha que adiantou? É claro que não!!! Estou hor-ro-ro-sa também na minha carteira. Em 10 anos, envelheci 20. E eu, que nunca fui de ligar pra essa questão de idade, saí querendo bater em mim mesma e no fotógrafo.
O que será que acontece com essas fotos? Será que as câmeras estão muito mais próximas da realidade do que os espelhos? Será que nossos espelhos estão vindo com filtros? Por que será que a imagem congelada da foto é sempre pior que a imagem que o espelho nos mostra? Falta o brilho do olhar, o movimento dos olhos e da boca, a naturalidade de quem não está posando, a descontração de quem não está preocupada em “sair bem na fita”? Pode ser. O fato é que fotos de documentos são nocivas à saúde emocional de qualquer mulher. Ao contrário dos homens, que contemplam as deles, fazem uma brincadeira qualquer e dois segundos depois se esquecem do que viram. Um dia a gente ainda aprende com eles a descomplicar a vida e a viver sem photoshop.
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18/04/2008
PRAZER PELA METADE
Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido – uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.
O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano. A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco. Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons. Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de “fácil”). Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta. Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo. Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai. Tantos deveres, tanta preocupação em “acertar”, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação... Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão. Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado” – deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: “Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora”. Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado. Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora. Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de coco, um sofá pra eu ver 10 episódios do “Law and Order”, uma caixa de trufas bem macias e o Clive Owen embrulhado pra presente – não necessariamente nessa ordem. Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.
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22/04/2008
HORÓSCOPO RECICLADO
“Cuidado com o docinho de hoje: ele pode ser o pneuzinho de amanhã!”. A advertência não foi feita por nenhum endocrinologista, nenhum nutricionista, nenhuma amiga interessada em me ver bem. Não, esse conselho em tom de ameaça estava nas previsões de um horóscopo que eu li num jornal uns dois anos atrás. Fiquei indignada: até os astros estavam coniventes com essa conspiração contra as gordurinhas femininas? Não era possível! Urano, em conjunção com Júpiter (se é que isso faz algum sentido), alertava para os perigos de bombons e brigadeiros? Com tantos fenômenos em andamento no universo, os astros agora se ocupavam de dietas?! Achei tão surreal que recortei o texto, guardei e transcrevi no meu livro sobre o cotidiano das mulheres.
Mal sabia que o pior estava por vir. Há poucos dias consultei o horóscopo do mesmo jornal (eu não emendo...) e lá estava, no meu signo, a mesma advertência de dois anos atrás. Com as mesmíssimas palavras. A não ser que, por uma coincidência planetária que deve ocorrer a cada cinco mil anos, Urano e Júpiter tenham se alinhado de forma exatamente igual à de dois anos atrás, tudo leva a crer que o jornal em questão recicla seus horóscopos.
Por desaforo, assim que acabei de ler comi dois pés-de-moleque: um pra matar a vontade do momento e outro em memória daquele dia em que eu deixei de comer doces pra obedecer ao horóscopo. Sei que estou cada vez mais parecida com o boneco da Michelin, com seus pneuzinhos harmoniosamente empilhados na região da cintura. Mas, se um dia eu resolver fazer alguma coisa a esse respeito, vai ser por decisão própria. Obedecer Urano e Júpiter? Me poupe!!!
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23/04/2008
OBEDECE QUEM TEM JUÍZO???
Hoje li uma frase numa revista que me fez pensar. Uma empresária super bem sucedida, falando sobre seus cuidados com a beleza, disse o seguinte: “Nunca mais peguei sol, desde que meu dermato ordenou”. Foi o verbo “ordenar” que me chamou a atenção. Não se tratava de uma recomendação ou um conselho – era uma ordem, e nossa empresária prontamente obedeceu.
Fico intrigada com essa facilidade que nós, mulheres, temos pra obedecer (mea culpa: ontem mesmo falei aqui sobre minha obediência ao horóscopo). Fomos criadas pra obedecer, primeiro os pais, depois os maridos. Aí veio o feminismo e mudou esse enredo. Hoje, pais orientam. Maridos não “mandam” mais. Mas nós passamos a obedecer nossos “dermatos”, nossos “endócrinos”, nossos “personal trainers”, nossos cabeleireiros e nossas esteticistas. “Nunca mais peguei sol”, diz a empresária com aquele orgulho de quem nunca sai da linha, nunca se extravia. Nunca mais pegar sol num país tropical é muita coisa... Imagine você ir pro sul da Bahia, pegar um dia de céu azul e tomar uma caipifruta curtindo o sol da manhã: que delícia!!! Mas, não – o dermato não deixa.
É, gente, ao que tudo indica, viramos donas dos nossos próprios destinos mas continuamos delegando a terceiros a tarefa de nos dizer pra onde ir. Acho que vale a pena repensar essa história. Tanto quanto o sol forte, o vício da obediência pode fazer mal à saúde – do corpo e da alma. Quer saber? Mais vale curtir uma manhã de sol na praia ou na montanha do que fazer um dermato feliz.
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25/04/2008
APRENDER É UM LUXO

Ontem tive a alegria de fazer uma espécie de talk-show com Gloria Kalil em um evento promovido por uma rede de shoppings em Belo Horizonte. Minutos antes de subirmos ao palco, perguntei a ela o que é luxo, em sua opinião. A consultora de moda e etiqueta mais badalada do Brasil respondeu que luxo é algo que te dá a sensação de privilégio porque parece ter sido feito com exclusividade pra você. Peço um exemplo e ela dá dois, que me surpreendem: uma palestra do compositor e crítico José Miguel Wisnik, que assistiu recentemente, e uma exposição da artista plástica Adriana Varejão no Centro de Arte Contemporânea de Inhotim (MG).
Gloria conta que se emocionou com a palestra de José Miguel e teve a experiência única de ver uma artista como Adriana Varejão acabando de montar a exposição que o público só veria no dia seguinte. Enquanto montava, Adriana ia explicando a ela cada detalhe do que estava ali. Resumindo: para Gloria Kalil, luxo, entre outras coisas, é estar em contato com a arte e aprender com ela. Ela me diz que adora aprender, ama descobrir coisas, e que essas experiências que ensinam dão a ela aquela sensação de privilégio que associa ao luxo.
Acho que esse é um dos ingredientes indispensáveis pra quem quer viver bem: essa curiosidade que não passa, a vontade permanente de descobrir o novo, a inquietação que não adormece. Quando a gente aposenta o desejo de aprender, a vida fica morna, a cabeça estaciona e o coração se ressente.
Que seja um curso de forró (e que delícia que é um curso de forró!), um seminário de filosofia, uma palestra sobre vinhos, uma oficina sobre o ponto G ou sobre os segredos do ponto cruz – não importa. O que vale é a disposição de se abrir pro novo, escancarar janelas e portas pra que ele entre, se dar a chance de se surpreender. Uma exposição de arte, um feriado na montanha, um livro que nos arrebata, um filme que nos desconcerta, um novo curso na faculdade, uma conversa com os mais velhos, o encontro com um homem que queremos conhecer… tudo são possibilidades de novas sensações, novos conhecimentos, novos roteiros. E isso, definitivamente, é um luxo.
Obrigada por mais essa dica, Glorinha. Amanhã, a gente volta a falar de você.
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26/04/2008
O TAL DO ESTILO
Uma camiseta de listras e uma sandália de onça combinam? Na Gloria Kalil, sim. Ontem falei aqui sobre a participação dela num evento que acabei de apresentar em Belo Horizonte. Glorinha estava usando uma calça preta, uma camiseta listrada de preto e branco, um casaquinho cáqui de gabardine e uma sandália de onça – e tudo combinava. Eu, que tinha levado duas horas pra decidir que roupa ia usar e acabei apostando na previsibilidade de uma calça preta com uma camisa branca, por medo de errar, fiquei olhando aquela mulher impecavelmente vestida com suas combinações inesperadas e pensei: isso é estilo.
Durante o talk-show que fizemos com ela, Gloria explicou: moda é oferta e estilo é escolha. Achei a definição perfeita. No self-service que é a moda, podemos escolher entre centenas de alimentos pra montar nossos pratos. E é aí que mora o perigo. Tantas vitrines, tantas “tendências”, tantos lançamentos, tantas possibilidades… A oferta é assustadora e a gente não sabe se opta pelo sóbrio ou o sexy, se fica com o básico ou a estampa floral, se investe no look festa ou na produção mais casual.
Saber escolher o que vale a pena e, acima de tudo, misturar com o que se tem em casa de um jeito criativo e original definitivamente não é fácil. Uma vez, um estilista amigo meu me disse que no meu guarda-roupa faltava uma pitada de fantasia. Era tudo muito correto, muito básico, muito previsível. Ainda é. As cronicamente inseguras, como eu, não se permitem ousar, experimentar, misturar, surpreender. Pra outras coisas na vida, sou destemida, arrojada, pouco convencional. Mas no capitulo figurino sigo sempre a cartilha do óbvio. Vendo Glorinha Kalil misturar com tanto acerto suas listras e sua estampa de onça, senti o tamanho da distância que existe entre moda e estilo. Nós, comuns mortais, suamos a camisa pra andar na moda. Ela, sem fazer a menor força, dá um show de estilo. A diferença é monumental.
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28/04/2008
CAMA KING SIZE
Minha amiga comprou uma cama imensa, um edredon maravilhoso e super macio e agora diz que olha pro que chama de “leito king size” e não sabe o que fazer com aquele “latifúndio improdutivo”. Não apareceu ninguém com quem tivesse vontade de estrear a cama e ela brinca que, daqui a pouco, o MST vai se apossar do leito, com edredon e tudo, e ela, mais do que nunca, vai ficar a ver navios.
Assim como ela, há muitas mulheres indo pra cama sozinhas. Ou porque não encontram homens interessantes o bastante, ou porque não encontram homens – ponto final, ou ainda porque não estão com vontade de se relacionar com ninguém no momento. O fato é que estão com excesso de edredon pra se cobrir e muitas se queixam disso. As que têm senso de humor brincam com a fase que estão enfrentando: “Estou naquela fase Graciliano Ramos de novo”, diz Fernanda. “Graciliano?”, pergunto. “É”, ela responde. “Vidas secas. Tudo sequinho”. Solange, amiga dela, faz coro: “Eu digo que estou na fase Atacama. Um deserto em matéria de grandes emoções ou sensações”. Renata, que sempre apostou no sexo seguro, está com uma gaveta cheia de preservativos quase fora do prazo de validade e já tem planos pra eles: “Vou transformar minha coleção de camisinhas em balões e sair voando igual ao padre do Paraná. Só que pretendo ter mais sorte do que ele e aterrissar num lugar cheio de homens interessantes”.
Juliana aterrissou em Buenos Aires, há pouco tempo. Foi cheia de planos e fantasias. Ia sair da fase Graciliano com um belo argentino. Conheceu um, saíram pra jantar, ele contou que morava em São Paulo, onde ela também mora, e marcaram pra se encontrar no Brasil. Ju depilou, esfoliou, hidratou, fez chapinha, decorou frases estratégicas em espanhol e recebeu seu argentino para uma noite de queijos e vinhos. Ficaram só nos queijos e vinhos. Aqui no Brasil, sem as fantasias que ela tinha levado na mala de Buenos Aires, Juliana foi vendo o quanto o argentino era sem-graça. O que tinha de bonito tinha também de vazio e narcisista. Ela pensou no corpinho esfoliado, na cama cheirosa e macia e chegou à conclusão de que ele não merecia nenhum dos dois. Continua na fase Atacama/Graciliano, mas não se arrepende. Achou melhor correr o risco de ver o MST ocupando seu latifúndio improdutivo do que ceder suas terras férteis para um portenho que nada acrescentaria à sua vida.
Não se preocupe, Ju. Dias melhores virão. E homens melhores também. Enquanto isso, aproveite o espaço de sua cama pra esparramar seus sonhos, seus desejos, sua liberdade e a alegria (sempre tão subestimada) de ser dona de sua própria vida.
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29/04/2008
A TERAPIA DO FILÓSOFO
Cerca de dois anos atrás entrevistei, em Londres, o filósofo suíço Alain de Botton e ele disse algo de que nunca me esqueci: contou que, quando está se sentindo meio depressivo, desanimado ou angustiado, costuma ir até o aeroporto de Heathrow. Não pra viajar, mas pra ver os aviões decolando e aterrissando e as pessoas chegando ou partindo. Segundo o filósofo, essa movimentação lembra a ele que a vida é feita de mudanças, de deslocamentos, de novas possibilidades. Existem sempre outros lugares, outros destinos, novas histórias pra se viver, novos cenários pra se recomeçar. Nem sempre no sentido literal, geográfico.
O que o ir-e-vir de aviões e passageiros ilustra é a possibilidade da mudança. Muitas vezes nos acomodamos, estacionamos na tristeza, puxamos o freio de mão na infelicidade. A acomodação no sofrimento é uma morte lenta, homeopática. Às vezes é o emprego que detestamos, ou a cidade onde moramos, mas que nunca sentimos como nossa cidade. Outras vezes é o casamento que já acabou ou o namoro que nada acrescenta. Não importa a razão, o fato é que costumamos aceitar como se fossem inevitáveis coisas que dá perfeitamente pra mudar. Temos medo do fim e da ruptura, medo do novo e do desconhecido. Ou, pior ainda, não acreditamos que exista a possibilidade do novo. Ficamos engessados nos velhos padrões, nas velhas crenças, nos velhos estilos de vida que não nos realizam e aí paramos de sonhar.
Passar uma hora num aeroporto qualquer pode sacudir nossa inércia, corrigir nossa miopia, lembrar que a vida existe em movimento e, a cada movimento, pode mudar e nos mudar. A tristeza profunda de hoje pode não existir amanhã. O amor que hoje dói tanto pode parar de doer. A solidão pode deixar de existir. As perdas podem cicatrizar. Mas, pra isso, temos que deixar a vida decolar. Temos que estar com o passaporte em dia, prontos pra embarcar.
Experimente a terapia do filósofo: passe algumas horas no aeroporto mais próximo. Tome um cafezinho, compre uma revista, ande pelos corredores sem pressa, contemple sem pudor quem está embarcando ou chegando, imagine quantas histórias aquelas pessoas carregam, veja as malas que foram e estão de volta, a bagagem que se prepara pra ir sem saber quando vai voltar. E não deixe de observar os aviões. Quem diz que é brega ficar olhando avião subir e descer não sabe de nada. A cada decolagem, a gente se lembra de que há um mundo vastíssimo nos esperando. A cada pouso, ficamos confortados de saber que, se for preciso, dá pra voltar. Em matéria de terapia, não consigo pensar em nada mais breve e mais barato. E, se dá certo com o filósofo, por que não daria com a gente? Tente, experimente e boa viagem!
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30/04/2008
POR QUE UM TRAVESTI?
É inevitável. Qualquer mulher, ao ler a notícia da confusão do jogador Ronaldo com os travestis no motel do Rio, a primeira coisa que faz é perguntar(ou se perguntar): por que um homem rico e famoso, que pode ter a mulher que quiser, escolhe ficar com um travesti? E não é só o fato de serem travestis. O que parece incomodar profundamente é que os travestis em questão são feios. Ronaldo deixou em casa uma mulher linda, a agora ex-namorada Bia Antony (foto), e foi ficar com três travestis de aparência estranha e mal-tratada. E tem mais: se dispôs a pagar pra ter sexo. Ou seja: o homem que, em tese, pode escolher entre as mais belas mulheres, sem ter que pagar nada, prefere fazer um programa pago com três travestis feios. É muita transgressão pra uma cultura que aposta todas as suas fichas na beleza e na fama. Na sociedade em que vivemos, as mulheres belas têm a preferência sempre, e famosos podem (e devem) ter do bom e do melhor, até quando eles próprios são considerados feios. Ao romper com essa lógica, qualquer personagem suscita curiosidade, perplexidade e desconforto.
Karina, uma leitora querida que me escreve da Itália, diz que todos os jornais lá estão falando do assunto e mostram Ronaldo como vítima de uma armação, de um golpe dos travestis. Ela própria se pergunta o que leva um homem como o jogador a sair com tipos como aqueles. Mas Karina faz uma coisa interessante: diz que prefere não julgar. Porque é aí, na tentativa de diagnosticar e condenar esse tipo de comportamento, que eu acho que a gente pode derrapar. Há quanto tempo Caetano Veloso vem nos lembrando que “de perto ninguém é normal?”. Há quantas décadas Freud mostrou a quantidade e a complexidade das camadas que nos constituem? E quantos textos Nelson Rodrigues escreveu pra mostrar que o ser humano é um poço de complicações, capaz de atos que, na melhor das hipóteses, surpreendem?
Por que é que um pai tranca uma filha durante 24 anos num porão na Áustria e tem sete filhos com ela? Por que é que alguém joga uma criança de 5 anos do sexto andar de um prédio? Ou, pegando mais leve: por que é que um homem casado com uma mulher que “tem tudo” a deixa sem mais nem menos, ou a mulher que está com um homem que “tem tudo” é capaz de “trocá-lo” por outro que aparentemente é insignificante? Por que é que algumas pessoas desistem de se casar quando já estão dentro da igreja? Por que é que traem depois de jurar que serão fiéis?
As perguntas são infinitas, mas não sei se somos capazes de respondê-las. Aliás, não sei se vale a pena tentar respondê-las. A matéria de que nós, seres humanos, somos feitos não se deixa analisar tão facilmente. Em cada célula nossa convivem bondade, perversidade, fantasias, desvios, comedimento e excessos. Nossas loucuras nem sempre aceitam ficar presas no porão que nossas almas carregam. Quando elas escapam, ficamos amedrontados diante do que somos capazes de fazer. Alguns de nós são capazes de matar, outros de se corromper. Alguns torturam os semelhantes fisicamente, outros os aniquilam emocionalmente. Diante dessa nossa capacidade de destoar do que esperam de nós e agir destruindo o outro ou nos destruindo, acho que ir parar num quarto de motel com três travestis de má aparência, quando se pode ter todas as mulheres, é o menor dos problemas.
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