| |
|
| |
|
|
|
Leila Ferreira é uma jornalista
que adora colecionar histórias das loucuras e das
manias femininas. É autora do livro Mulheres:
Por que Será que Elas...?, da Editora Globo |
|

|
Fale
com ela |
|
|
| |
| Mulheres: Por que Será que Elas...?
|
|
|
Moda,
consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse
e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei
a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação
por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas
de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei
com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos
e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam
de verdade, parecem pura ficção |
|
| |
| Nós, Mulheres na Marie Claire |
|
|
|
| |
|
05/05/2008
A VIDA SEM RÓTULOS
Neste último fim de semana recebi aqui em São Paulo a visita do mais querido dos meus amigos: meu ex-marido. Que, aliás, não sei se era marido, namorado ou companheiro (companheiro é péssimo. Parece colega de sindicato). Eu costumava dizer, nos 14 anos que ficamos juntos, que ele era meu namorado/marido. Aí alguém sempre sugeria: “Namorido?”. Eu concordava pra não ser indelicada, mas não gostava do rótulo, porque, como todo rótulo, já vinha pronto. Como nós dois sempre tivemos um relacionamento meio diferente, preferia não classificá-lo com uma palavra só. Era resolver o não-resolvido, reduzir uma infinidade de sentimentos e situações a uma classificação que, pelo menos pra nós dois, não dizia nada.
Hoje, dois anos depois de nos separarmos, constatei, com imenso alívio, que o que nós dois vivemos juntos continua “inclassificável”. Não somos casados, nem namorados. “Ficantes?”, pergunta uma amiga. A outra responde por mim: “Não, ele é o fixante dela. Um ficante fixo”. A filha dessa amiga, ao saber que meu ex estava vindo passar o fim de semana comigo, perguntou à mãe: “Ué, a Leila voltou?”. Mandei dizer a ela que eu nem fui ainda, portanto não podia voltar.
Idas e vindas – assim tem sido nossa vida a dois. Ninguém entende, muito menos nós. Ontem passeamos de mãos dadas pelo Parque Villa Lobos feito adolescentes, tomamos vinho num restaurante espanhol como se estivéssemos acabando de nos conhecer, lemos os jornais no meu apartamento como se fôssemos um velho casal. “Por que vocês não ficam juntos de uma vez?”, perguntam os amigos comuns. Talvez porque, ficando juntos, a gente acabe por se separar. Ficando assim, nesse território onde as fronteiras se diluem, a gente sente menos medo. Somos melhores como ex. Não funcionamos bem no formato casal.
Existe futuro nessa vida sem rótulos? Existe, mas é diferente. Estamos planejando uma viagem pra Índia, mas nem sabemos quando vamos nos ver agora. Pode ser que a viagem não aconteça. Pode ser que a gente se veja antes do que imaginamos. Ou quem sabe as outras, que certamente existem, tenham outros planos pra ele? Pode ser que ele se apaixone por uma delas e a leve pra conhecer o Taj-Mahal. Tudo nesta vida pode ser, para os casados e os não-casados, os que sabem o que constituem juntos e os que não. Tudo é um risco e uma incógnita. Mas me fascina, nesse terreno arenoso que é a vida a dois, saber que temos o direito de inventar parcerias que se pareçam conosco. Do alto (ou do fundo) da minha incompetência amorosa, eu jamais saberia conduzir um casamento nos moldes tradicionais. Se ele sabe, talvez finja não saber por delicadeza, mas suspeito que não. E assim seguimos nós, estes dois amigos que são muito mais que amigos e, graças a Deus, muito menos que um casal.
|
|
|
 |
 |
 |
06/05/2008
ASSUNTO QUE NÃO ACABA
Dizem que nós, mulheres, falamos muito. Dizem. E aí a gente fala durante meia hora pra argumentar que não é bem assim, que não falamos tanto quanto dizem. Brincadeira... Nem todas as mulheres falam pelos cotovelos. Mas uma coisa é certa: falando muito ou falando pouco, nunca nos falta assunto. Uma vez ouvi o psiquiatra Içami Tiba dizer que fica impressionado ao ver duas mulheres se despedindo: a despedida não acaba nunca. É verdade. Outro dia, minha amiga Cristina veio me deixar em casa depois de um jantar que durou três horas. Conversamos mais meia hora na porta do meu prédio e olha que já era quase meia-noite. De vez em quando, uma dizia: “Olha só que perigo, a gente parada aqui, com essa rua vazia...”. A outra concordava e voltava ao assunto. Cristina costuma me ligar aos domingos, pra dizer que ela e o marido vêm me buscar pra almoçar e nós, que vamos nos encontrar dali a pouco, ainda conversamos mais uns 15 minutos depois de combinar o programa.
As irmãs Nídia e Patrícia também são assim. Elas moram na mesma cidade e se visitam algumas vezes por semana. As visitas são demoradas, mas, assim que chega em casa, Patrícia costuma pegar o telefone e ligar pra irmã. O marido, claro, não entende. Como é que pode, depois de passar duas horas juntas, elas ainda terem o que dizer uma à outra? “Mas a gente tem”, garante Patrícia. “Tem sempre alguma coisa que a gente se esqueceu de falar e acaba lembrando no caminho de casa”. Eu acredito.
Quando duas mulheres conversam, o assunto se estende. Quando são mais de duas, além de se estender, ele ramifica. É o que chamo de conversa no estilo bacia hidrográfica: tem um rio, que é o assunto principal, e depois vêm os afluentes, os braços de rios... Explicando melhor: num grupo de quatro amigas, uma começa a dizer alguma coisa. A segunda ouve mais ou menos, dá uma opinião qualquer e começa um segundo assunto. A terceira finge que ouve, fala com a quarta sobre outra coisa e a quarta, por sua vez, retoma o assunto da primeira. Dali a pouco, estão todas falando ao mesmo tempo sobre quatro assuntos distintos. Agora me diga: algum homem, em sã consciência, é capaz de entender essa “dinâmica” feminina? Nunca, jamais, em tempo algum.
Nossa relação com as palavras é única. E, assim que escrevo isso, me lembro de uma frase que meu irmão Ronan disse uma vez (e que eu amo): “As palavras são o único brinquedo que eu guardei da minha infância”. Numa casa onde faltavam muitas coisas materiais, nós crescemos amparados, confortados e alimentados pelas palavras. Minha mãe nunca foi de abraçar ou beijar os filhos: fazia carinho com as palavras. E suas palavras nos esquentavam nos invernos araxaenses, diluíam nossos medos, nos nutriam.
Acho que nós, mulheres, sabemos bem do que são capazes as palavras. É verdade que às vezes a gente se excede. Quase todas nós podíamos falar menos um pouquinho... Mas ai de nós sem essas sílabas que vamos alinhavando pela vida afora. Ai de nós sem essas letras que costuramos pra traduzir os sentimentos. Que nos perdoem (eles, os homens) por nossos excessos. Sem nossas longas falas e nossas bacias hidrográficas, ficaríamos órfãs de sentido.
|
|
|
 |
 |
 |
07/05/2008
SONHANDO EM FRANCÊS
Ai, o ciúme! O ciúme faz coisas!... Destrói relacionamentos,faz emagrecer, faz engordar (cada um metaboliza a ansiedade de um jeito), põe a receita a perder quando pretendia apenas apimentar... enfim, a vida complica em todos os sentidos. Mas, de vez em quando, muito de vez em quando, o ciúme rende histórias divertidas. Ouvi uma ótima outro dia. E quem me contou foi o próprio enciumado. Vamos chamar o moço de Guilherme.
Arquiteto descolado e homem vivido, ele nunca fez o gênero ciumento. Até que conheceu Bebel, professora de francês, e tudo mudou. Apaixonado, começou a ficar inseguro e cismou que Bebel tinha outro. Começou a se torturar, mas não queria dar o braço a torcer e encher a amada de perguntas. O ciúme virou uma neura – tinha que aparecer uma saída. Foi aí que Guilherme teve uma idéia “brilhante”, segundo ele próprio. Nosso arquiteto sabia que a namorada falava durante o sono, mas nunca tinha ouvido, porque sempre dormia antes dela e durante a noite não acordava por nada deste mundo. Certo de que ela revelaria todos os segredos enquanto sonhava em voz alta, ele tomou bastante café, fingiu que estava dormindo, e esperou sua Cinderela sonhar. Não demorou muito. Quando ela começou a falar, ele ficou imóvel, com o coração disparado e a culpa de quem se vê, de repente, com livre acesso a um território proibido.
Bebel começou falando meio enrolado. Guilherme aumentou seu nível de atenção. E aí... não, não era possível! Aquilo não era português. Será que Bebel estava falando outra língua?! Sonhando em outra língua?! Sim, era possível: sua amada estava sonhando em francês! E ele, que era fluente em inglês (tinha feito intercâmbio, passado no TOEFL e no PROFICIENCY), de francês não sabia nada. A moça conversou a noite toda – uma Maria Antonieta ali em sua cama, insensível ao sofrimento alheio, e ele, Guilherme, mais enciumado do que nunca, se sentindo excluído, aprisionado.
Faço a pergunta inevitável: ele contou a ela? Diz que sim – claro que sem mencionar que estava vigiando seus sonhos. Bebel não se surpreendeu. Disse que algumas amigas (e provavelmente outros namorados, pobre Guilherme) já tinham ouvido seus sonhos em francês. E agora, Guilherme? “Agora não sei”, disse ele, com aquele olhar de quem está sentindo mais ciúmes do que nunca. Fiquei calada. Achei melhor não dizer o que eu estava pensando: que daqui a poucos dias a Aliança Francesa vai ganhar mais um aluno. Um arquiteto dos mais motivados. Quer apostar?
|
|
|
 |
 |
 |
08/05/2008
AS ROSAS DE ISABEL ALLENDE
Alguns anos atrás, tive a alegria de entrevistar Isabel Allende em Sausalito, na Califórnia – um daqueles dias que a gente carrega na memória pro resto da vida. Nossa equipe tomou o café da manhã com ela, em seguida gravamos dois programas (vi que um não daria nem pro começo da conversa...) e, quando terminamos, a autora de “A Casa dos Espíritos” nos levou pra almoçar num restaurante italiano. Foi tudo perfeito. Ela deu uma entrevista maravilhosa, depois nos contou histórias, nos fez rir e me deu de presente uma escultura em madeira de uma criança adormecida que eu tinha elogiado quando chegamos (batizada de Isabelita, ela me acompanha desde então e “dorme” no meu quarto).
As cenas e as lembranças que ficaram daquele dia são muitas, mas talvez a mais forte, a mais comovente, tenha sido a explicação de Isabel para um bouquê de rosas secas que estava em sua estante. Enquanto passeávamos pelo estúdio onde ela escreve seus livros, vi aquelas rosas amorosamente colocadas entre as fotos da família e perguntei o que eram. Isabel contou que, quando sua filha Paula morreu (e quem ainda não leu “Paula” deveria ler, pela beleza do livro), junto com as cinzas de Paula ela jogou um bouquê de rosas num riacho. Alguns dias depois, voltou ao local e custou a acreditar no que viu: o bouquê estava ali na margem, poucos metros adiante do ponto em que tinha sido jogado. Provavelmente, ele agarrou em algum galho que estava no riacho e foi levado pela água até a margem, mas o fato é que estava ali, quase intacto, como se estivesse esperando por Isabel.
Nesta semana no Dia das Mães, em que tantas histórias tristes de mães, pais e filhos insistem em nos assombrar, a lembrança desse diálogo silencioso entre Isabel e Paula pode servir de antídoto pras nossas tristezas e o nosso espanto diante do que o ser humano é capaz de fazer. Ali, naquele riacho da Califórnia, ficou registrada uma história de amor entre mãe e filha que transcendeu a perda. As águas mansas do riacho entenderam o tamanho daquele amor e se recusaram a levar as flores que acompanhavam as cinzas. Adivinhando que a escritora voltaria ali pra se despedir da filha mais uma vez, devolveram a ela o presente que seria de Paula, mantendo vivo o diálogo entre mãe e filha Na estante de Isabel Allende, onde estão hoje, as rosas falam, e acho que vale a pena ouvir o que elas têm a nos dizer.
|
|
|
 |
 |
 |
12/05/2008
LIBERDADE, AINDA QUE DE TARDINHA
Foi na parede de uma repartição pública em Belo Horizonte, nos idos de 80, que alguém viu essa versão deliciosa do lema dos inconfidentes que ilustra a bandeira de Minas. O “Libertas quae sera tamen” (“Liberdade ainda que tardia”) ganhou uma tradução mais livre (e mais pra cima) pra expressar o alívio dos funcionários no final de um dia entediante de trabalho. Às seis da tarde, era hora de bater o ponto e sentir o doce sabor da liberdade.
Sempre me lembro dessa frase quando alguém diz que gostaria muito de fazer (ou de ter feito) alguma coisa, mas o momento passou. Por exemplo: “Eu sempre quis aprender a tocar piano, mas agora não dá mais”, ou “Meu sonho era ser veterinária, mas fazer faculdade a esta altura da vida?...”, ou ainda “Separar agora que nós já agüentamos 20 anos juntos? Agora já era...”. Tem quem diz que investiu muitos anos num relacionamento ou numa carreira e, por isso, não pode se separar nem mudar de profissão. Acho estranho esse raciocínio. Será que faz sentido abrir mão de algo com que a gente sonha porque “ficou tarde”? Tarde por quê? Tarde pra quê? Tarde pra quem?
Conheço uma senhora fantástica, a doutora Maria Helena, que se formou em Medicina aos 66 anos. Foi quando a vida permitiu e ela não teve dúvidas: correu atrás. Hoje atende pacientes carentes num posto de saúde em Belo Horizonte e garante que encontrou o sentido da vida. Com um detalhe, que de detalhe não tem nada: ela fez o curso de Medicina junto com um de seus filhos. Eles se formaram juntos. Mas, pouco depois de receber o diploma, o filho morreu num acidente. A dra. Maria Helena sofreu tudo o que uma mãe tem o direito de sofrer, mas reinventou seu projeto de vida e recomeçou. O que seria um caminho dividido com o filho passou a ser uma viagem a sós. Até que vieram os pacientes, pobres, sofridos, precisando de uma médica que também fosse mãe. Aí a solidão acabou.
É por histórias como essa que eu acho que, quase sempre, tentar é melhor do que não tentar. E tarde (ou de tardinha) pode não ser o momento ideal, mas é melhor do que nunca. Não há nada mais desgastante do que viver uma vida que não se quer viver. E insistir num projeto que não nos realiza só porque já investimos muito nele é privilegiar o passado em vez de dar uma chance ao futuro. Por isso, amiga, pare com essa bobagem de dizer que não dá mais, que a hora passou. A sensação de liberdade que vem quando a gente realiza algo que queria muito é uma das coisas melhores da vida. Mesmo quando ela só vem de tardinha. Mesmo quando a gente tem que esperar até o sol se pôr.
|
|
|
 |
 |
 |
14/05/2008
VAIDADE, VAIDADE!

Ontem fui a um seminário super interessante promovido pela revista Seleções sobre o tema “Um Novo Olhar sobre a Vaidade”. Profissionais da estética, como Fernando Torquatto, Carlos Carrasco e Celso Kamura, a filósofa Márcia Tiburi, a dermatologista Lígia Kogos, a consultora de moda e etiqueta Glória Kalil e muitos outros conversaram durante horas sobre a teoria e a prática desse pecado capital que cada vez cometemos com mais volúpia. Ouvi coisas interessantíssimas, mas uma das que mais me chamaram a atenção foi um dado citado pela antropóloga Mirian Goldenberg. Segundo Mirian, o Brasil é líder mundial no consumo de dois produtos: remédios para emagrecer e Viagra.
Eu já tinha visto os dois dados separados, mas colocados assim, lado a lado, eles nos obrigam a pensar. E a primeira coisa que me ocorreu foi que nós estamos, literalmente, juntando a fome com a vontade de comer. Peço mil desculpas pela linguagem chula, mas não resisto, porque é isso mesmo: de um lado, as mulheres famintas, porque não podem engordar. Do outro, os homens turbinados pra poder pegar todas as mulheres sem correr o risco de falhar. Gente, que cultura é esta?!
Mirian Goldenberg, que estuda nossa relação com o corpo e as representações do masculino e do feminino na nossa cultura, fez uma pesquisa com mais de 1200 moradores do Rio de Janeiro e pediu a eles que escrevessem um anúncio se apresentando, como se estivessem procurando um parceiro nos classificados de um jornal. Os anúncios redigidos pelas mulheres podem ser resumidos mais ou menos assim: “Eu sou magra, jovem, cabelos loiros, longos e lisos, bunda grande, seios firmes, linda e gostosa”. A versão masculina é: “Eu sou alto, forte, bem-dotado, inteligente e rico”. Ou seja: pra fazer sucesso com o outro sexo, entre outras coisas, a mulher tem que ser magra e o homem deve ser capaz de satisfazê-la. Daí o consumo desenfreado de moderadores de apetite e Viagra. Mulheres famintas e homens turbinados.
Só pra encerrar, uma passagem divertida contada pela Mirian Goldenberg. Ela foi apresentar essa pesquisa na Alemanha e teve dificuldade pra fazer os alemães entenderem o que quer dizer o “bem-dotado” que aparece nos anúncios. Como bem lembrou a antropóloga, nenhum alemão se apresenta assim. “Se um homem se apresentar nesses termos pra uma mulher na Alemanha, ele corre o risco de ficar sozinho pro resto da vida”, brincou a antropóloga. São as chamadas diferenças culturais. Aqui, é bem capaz de ele ter que distribuir senhas... Brincadeira! O fato é que, enquanto pensarmos assim – homens apostando tudo na potência e mulheres investindo tudo na magreza - nós vamos continuar liderando o consumo de Viagra e anfetaminas. Nosso corpo pode até não gostar, mas a indústria farmacêutica penhoradamente agradece.
|
|
|
 |
 |
 |
16/05/2008
AI, MEUS CABELOS!
Espelho, espelho meu, existe no mundo algum cabelo que dê mais trabalho do que o meu? Não é de hoje que nós brigamos. Quando eu era adolescente, e o inventor da chapinha ainda nem tinha nascido, eu só não fiquei com LER de tanto rodar touca porque a LER também não existia. Eu dormia de touca, com uns 30 grampos segurando e uma meia de nylon por cima, acordava com dor de cabeça, de tanto desconforto, rodava a touca na direção contrária e ia pro colégio relativamente lisa. Durava pouco: se estivesse garoando, o efeito da touca ia pro espaço. Se estivesse fazendo calor, eu transpirava e o cabelo arrepiava todo. Eu voltava pra casa anelada e infeliz.
E os bailinhos, que a gente chamava de horas-dançantes? Depois de 12 horas com meia de nylon na cabeça, eu soltava o cabelo e estendia sobre a mesa de passar roupa. Minha mãe cobria aqueles fios nada sedosos com uma toalha e passava, com o ferro de passar roupa mesmo, como se estivesse passando uma roupa de linho. Eu subia pro clube com o pescoço duro, pra não desmanchar o look liso. Mas, depois de dez minutos de dança e fumaça (e eu não parava de dançar um minuto), os cabelos recém-passados inchavam e eu ficava irreconhecível.
Meu sonho era ter aquele cabelo que aparecia nos filmes de amor de Hollywood: a atriz fazia um coque preso por um grampo só e, na cena da sedução, o galã puxava aquele grampo e a cabeleira lisa e brilhante caía, cobrindo os ombros da heroína e acabando com minha auto-estima. Eu pensava: nunca vou arrumar namorado com esse cabelo... Se eu fizer um coque, vou ter que usar uns 35 grampos e, quando o infeliz do meu amado conseguir soltar tudo, o cabelo vai continuar de pé – ou você acha que os cabelos anelados da geração pré-chapinha e pré-progressiva caíam nos ombros? A troco de quê?
Tentei de tudo. Até cobrir os cabelos com banana prata amassada e ficar 24 horas com aquilo, pra depois descobrir que Lorenzetti nenhum dava conta de remover os pedacinhos da banana e o cheiro. Fui pra hora-dançante com cheiro de sacolão e o cabelo anelou do mesmo jeito.
Hoje, décadas depois, meu cabelo virou outro. Só porque agora a gente pode ter cabelo anelado, ele perdeu todos os cachos (culpa dos hormônios, me disseram...), mas também não ficou um liso resolvido. É aquele liso sem vocação pra liso. E a franja, ah, minha franja... ela tem uma onda gigante, uma espécie de tsunami, que ignora qualquer progressiva. Ou seja, na minha cabeça convivem um cabelo que é naturalmente semi-liso e uma franja que é irreversivelmente ondulada. Esse ser híbrido, pra completar, é super oleoso, e muitas vezes exige ser lavado duas vezes por dia. Quando eu era repórter da Globo em Minas e começava a trabalhar às seis da manhã, eu tinha que me levantar às 4h15 pra lavar a cabeça e fazer escova. Aí me mandavam fazer matérias sobre as enchentes e a escova... já viu... Propus lançar a moda “repórter de turbante” (ainda não se falava em burca naquele época), mas não fui ouvida. Ah, como esse cabelo interferiu no meu desempenho no vídeo...
Hoje, longe do vídeo e das horas-dançantes, acabo de fazer uma escova básica pra sair com duas amigas. Vamos a um bar aqui em Pinheiros, perto de onde moro, ou seja: um programa que não exige nenhuma produção de cabelo. Mas já puxei minha franja com toda a força, já esbravejei, já passei um creme que só aumentou a oleosidade e agora me preparo pra sair emburrada, pela milésima vez. Ai, os cabelos!... Vou desligar o computador agora, pegar minha bolsa e sei que vou dar uma última olhada no espelho. Pra quê, eu me pergunto, pra quê? Porque mulher gosta de sofrer, diria um machista de plantão. E o pior é que, neste caso específico, sou obrigada a concordar. E você?
|
|
|
 |
 |
 |
|
 |
|