Sobre a Leila
Leila Ferreira é uma jornalista que adora colecionar histórias das loucuras e das manias femininas. É autora do livro Mulheres: Por que Será que Elas...?, da Editora Globo

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Mulheres: Por que Será que Elas...?
Moda, consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam de verdade, parecem pura ficção
 
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03/06/2008
ATÉ TU, WIMA?

Definitivamente, as fêmeas não são mais as mesmas – nem entre os gorilas. Os grupos formados por esses primatas sempre têm um macho dominante, que vive com um harém de fêmeas e os gorilas jovens, e as fêmeas só podem se acasalar com o líder do grupo. Segundo os estudiosos da espécie, as regras de acasalamento são rígidas e as fêmeas jamais ousam desrespeitá-las. Isto é, jamais ousavam. Um teste de DNA feito num zoológico da Suíça comprovou que Chelewa, um filhote de dois anos e meio, não é filho de Kisoro, o macho dominante. Confirmando as suspeitas da equipe do zoológico, a mãe de Chelewa tinha desobedecido todas as regras e se acasalado com Viatu, pai da “criança”.

Foi uma dupla transgressão. Além de chegar às vias de fato com um macho que não era o chefe do grupo, a gorila Wima escolheu como parceiro um “jovem” de nove anos – sendo que nas comunidades dos gorilas a idade mínima para o acasalamento é de 12 anos (Kisoro, o traído, tem 17. A idade de Wima não foi revelada). Ou seja, nossa amiga não só pôs um par de chifres num macaco (o que vai contra até a biologia), como corrompeu um menor ou se deixou corromper por ele. Fêmea da pá virada.

A imprensa européia não revelou quais foram os desdobramentos. Não se sabe se Kisoro suspeita que foi traído, nem se Viatu, agora já com 11 anos e meio, pretende assumir o filho e formar um grupo em que seja o macho dominante de fato. Também não foi dito se Wima, que não é fácil, continua com os dois parceiros ou se já encontrou um terceiro amor. Essa história ainda vai dar o que falar. Se até em cativeiro, e até entre os gorilas, as fêmeas estão se rebelando contra as regras ditadas pelos machos, imagine entre outras espécies e em outros habitats. Quem ainda duvida que os tempos são outros não perde por esperar.

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04/06/2008
ONDE ANDAM AS AVÓS?

Vou correr o risco de ser chamada de saudosista, passadista e vários outros adjetivos que não me ocorrem agora, mas tenho de confessar uma coisa: morro de saudades de quando o mundo tinha avós com cara de avós. Cabelos brancos, coques presos com travessinhas (alguém se lembra das travessinhas?), vestidos largos abotoados na frente e um casaquinho ou um xale eternamente jogado nos ombros – assim eram as avós de antes. As meias vinham até abaixo dos joelhos (ninguém se importava com o elástico à vista), os sapatos eram os que não maltratassem os pés e à noitinha as avós se sentavam em poltronas que iam envelhecendo junto com elas, amaciando pra acolher o cansaço do corpo. E o corpo... ah, era corpo de avó. Com dobras suaves, as pernas se movendo com cuidado, as costas ligeiramente curvas, a pele dos braços balançando alegremente. Os netos mais abusados pediam pra “segurar a pelanca” e elas deixavam, com a cara melhor do mundo. Ser velho ainda não era pecado. Ter “pelancas” fazia parte de uma etapa da vida.

Hoje as avós têm cara de mãe, as mães têm cara de filha e o mundo ficou infinitamente mais sem-graça. Faltam as rugas que sorriam pra nós, o colo macio que atenuava nossos medos, os cabelos brancos que lembravam que a vida era feita de ciclos. As avós esfoliadas, massageadas e lipo-esculpidas podem estar ótimas e têm todo o direito do mundo de se sentir bem assim, mas não têm cara de avós. O botox, o jeans manequim 40, os cabelos loiros ou vermelhos – tudo faz parte de uma nova estética que as novas avós têm o direito de exibir, mas fica faltando o aconchego de antes. Falta o passado dentro do presente, o outono e o inverno que sempre sucederam a primavera e o verão.

Ser jovem ou parecer jovem é considerado uma virtude no mundo de hoje. O processo de juvenilização estimulado pela nossa cultura faz com as pessoas fujam dos sinais do tempo como o diabo da cruz. E aí vamos ficando com essas aparências estranhas de quem não tem idade. Você olha pra uma mulher e não sabe se ela está na faixa dos 30, dos 40 ou dos 50. Olha pra uma avó e não imagina que ela possa ser avó. E, caso ela revele que tem netos, ai de você se não disser rapidamente:”Como?! Você, avó?! Jovem assim? Como é que pode?”. Avó, só, não pode. Tem que ser uma jovem avó.

Acho que ainda vamos sentir saudades da velhice. Saudades de poder construir um futuro onda caiba o passado com seus sinais, a história com suas marcas. Tenho um pouco de medo das mulheres que não envelhecem nunca. A sensação que eu tenho é que, aos poucos, elas vão perdendo a alma. Cuidar bem de si, ficar bonita e com aparência saudável, tudo bem. Mas apagar o tempo até perder a idade, não sei, não - acho meio sinistro. Deve ser neura minha. Assim como demorei séculos pra me acostumar com o computador e hoje amo fazer este blog, pode ser que um dia eu ainda aceite que ter aparência jovem é o máximo e me acostume com um mundo sem avós. Pode ser. A gente nunca sabe.

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05/06/2008
UM DIA LENDO

“Um dia lindo é um dia lendo”, dizia o saudoso Artur da Távola. Nada melhor do que um livro que nos faz esquecer do mundo lá fora. Sou viciada, compulsiva, dependente – enfim, não consigo imaginar a vida sem a leitura, e acho que quem afirma que não gosta de ler é porque ainda não procurou direito. Você tem que achar o livro que é seu número, e não o que “veste” ou “calça” bem os outros leitores. Eu, por exemplo, não consigo ler Saramago. Sei que ele é o máximo, sei que a literatura que ele faz é de altíssimo nível. Sei, sei, sei... mas não sinto. Não mergulho no que ele escreve, não esqueço o mundo lá fora, não sinto qualquer arrebatamento. Em compensação, tem livro policial que me faz ficar em casa, deixar de atender o telefone, rezar pra não receber visitas. Amo histórias policiais, adoro acompanhar as investigações e, lá pelo meio do livro, já acho que sou amiga do delegado, namorada do detetive e vizinha da protagonista.

Não acho que ninguém tem obrigação de gostar só das grandes obras. Não é pecado não conseguir chegar até o final de um livro de Guimarães Rosa ou Machado de Assis. E nem é vergonha ter a coleção completa de Sidney Sheldon. Aliás, um dia vou contar aqui o encontro que tive com ele, quando fui entrevistá-lo na Califórnia. Foi uma das pessoas mais apaixonantes que já conheci na vida.

E aproveito que estamos falando de livros pra deixar uma sugestão, atendendo ao pedido de uma de nossas leitoras. Vou ser óbvia e sugerir um best-seller: “Comer, rezar, amar” (Ed. Objetiva), de Elizabeth Gilbert. A autora, uma americana bem-sucedida, que parecia ter tudo, começa a questionar tudo que tinha e decide sair pelo mundo na tentativa de encontrar um sentido (ou vários) pra vida. Elizabeth vai para a Itália, a Índia e a Indonésia, mas a maior viagem acaba sendo a que ela faz pra dentro de si mesma. É um livro saboroso, leve e ao mesmo tempo denso, bem-humorado e poético. Uma ótima leitura pra começar no fim de semana, com um moletom bem quentinho e uma xícara de café ou de chocolate por perto. Aí, é só torcer pro telefone não tocar. Ou, caso ele toque, se dê um presente: não atenda.

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06/06/2008
PARAR É PRECISO

Quando foi a última vez que você aproveitou o fim de semana pra não fazer nada? Pra ficar à toa de verdade, sem enfrentar a fila do cinema ou do restaurante, sem ir à balada ou ao cabeleireiro, sem bater perna no shopping ou fazer supermercado? Eu não me lembro quando foi meu último fim de semana assim. Provavelmente na adolescência. Há décadas não sei o que é passar sábado e domingo naquele ócio não-criativo, o nada-fazer que inclui a pausa de todos os projetos, a inércia abençoada, a suspensão de todos os planos.

Tem fim de semana que a gente corre tanto e faz tantas coisas (achando que está vivendo momentos de lazer) que, quando chega domingo à noite, a sensação que se tem é de que é quarta-feira. E a expectativa é sempre de que se faça algo. Na quinta-feira os amigos já começam a perguntar: “Quê que você vai fazer este fim de semana?”. Não passa pela cabeça de ninguém que o sábado e o domingo possam ser aproveitados pra não se fazer absolutamente nada, não ir a lugar algum. A sociedade do entretenimento oferece milhares de opções e a gente acaba sobrcarregando a agenda de lazer.

Entrevistando o rabino Nilton Bonder recentemente, ouvi dele que a incapacidade de parar é uma forma de depressão. Bonder argumenta que a pausa é fundamental pra saúde de todo ser vivo. E um filósofo que eu amo, Mario Sergio Cortella, afirma que estamos vivendo um cotidiano turbinado. Fazemos tudo em ritmo acelerado e olhamos pro relógio, não pra saber que horas são, mas pra ver quanto tempo falta. Segundo o filósofo, estamos como Cristóvão Colombo, que, quando partiu, não sabia pra onde ia e, quando chegou, não tinha a menor idéia de onde estava.

Antes que nossas caravelas naufraguem, ou antes que a gente descubra um continente que não estava nos nossos planos, talvez seja bom experimentar um fim de semana de nada-fazer. E talvez seja essencial aprender a parar no nosso dia-a-dia. Que seja uma pausa de meia-hora ou de cinco minutos – não importa. Mas que existam as pausas. Nem que seja pra gente decidir com calma o que vai fazer no próximo fim de semana.

Foto: Shutterstock.com

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09/06/2008
MULHERES E JANELAS

Outro dia ouvi uma coisa interessante de um agente de viagens. Depois de nos falarmos por telefone algumas vezes, marcando e remarcando minha passagem não me lembro pra onde, eu liguei pra ele mais uma vez e disse que tinha me esquecido de pedir que o assento fosse na janela. “Eu já reservei”, ele respondeu. “Sempre que vou fazer uma reserva pra mulher, peço janela. Quando é homem, peço corredor”. Claro que eu quis saber por quê. “Porque 99% das mulheres têm preferência pela janela e 99% dos homens pedem o corredor”.

Achei curioso. Numa época em que nós, mulheres, viajamos tanto ou mais que os homens, trabalhamos, enfrentamos desafios e nos lançamos em tantas ou mais empreitadas do que eles, por que será que continumos preferindo os cantos? No caso específico do avião, ficar no corredor significa se levantar com mais facilidade pra ir ao banheiro e ter um pouco mais de espaço pra acomodar as pernas – duas coisas que, em tese, são tão positivas pras mulheres quanto para os homens. Então por que preferimos ficar na janela? Pra ver a paisagem na decolagem e no pouso? Mas isso não interesssaria igualmente aos homens?

Conversando com algumas amigas, elas não só confirmaram que preferem a janela nos aviões e nos ônibus quanto revelaram que, nos restaurantes e nos bares, gostam mais de se sentar nos cantos. Uma acha que se sente mais “protegida”, inclusive dos olhares. Outra afirma que é uma questão de aconchego – os cantos seriam mais aconchegantes do que os espaços centrais ou os corredores.

Isso me fez lembrar uma música que ouvi uma vez num ritual chamado “mutirão da capina”. Em algumas regiões de Minas Gerais, enquanto limpam o solo onde vão plantar milho ou feijão, os trabalhadores rurais entoam canções que falam da natureza e da colheita e depois, ainda cantando, levam oferendas para os donos da fazenda. Quando chegam à casa dos donos, cantam uma música que diz que “a porta é do patrão e a janela, da patroa”. Nada mais simbólico. A porta, que permite sair para o mundo, é masculina. As janelas, que, ao mesmo tempo que mostram o mundo lá fora, nos protegem dele, são femininas. A porta por onde os patrões passam libera. A janela onde as patroas se debruçam freia.

Mesmo com todas as mudanças e todos os avanços, talvez a gente ainda se sinta mais à vontade tendo a moldura de uma janela ou um canto que nos protejam, ainda que simbolicamente. Afinal, durante séculos era o homem que se lançava ao mundo, enquanto a mulher se movimentava timidamente no reduzido espaço doméstico. A realidade objetiva mudou, mas, dentro da gente, tudo muda mais lentamente. Os homens que aproveitem agora. Daqui a pouco vão ter que disputar conosco também o espaço para esticar as pernas.

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11/06/2008
TUDO POR UM HÍMEN

O fato ocorreu na França e há dias vem sendo debatido no país. Na cidade de Lille, um casamento entre muçulmanos foi anulado porque o novo descobriu que a noiva, ao contrário do que alegara, não era virgem. E o pior foram as circunstâncias. O noivo, um engenheiro, constatou a não-virgindade da noiva, uma auxiliar de enfermagem, antes do final da festa. O casal tinha se retirado pra viver sua noite de núpcias, mas os convidados ainda estavam todos ali. Ao descobrir que tinha sido enganado, o engenheiro não teve dúvidas: voltou e anunciou pra todos os convidados que iria pedir a anulação do casamento porque a noiva tinha mentido sobre sua virgindade. Foi o que ele fez: recorreu à justiça e ganhou a causa.

Por essas e outras, as muçulmanas educadas na Europa têm recorrido cada vez com mais freqüência à cirurgia de reconstituição do hímen. Convivendo diariamente com uma cultura liberal, elas acabam adotando o comportamento sexual das européias, mas, na hora de se casar com um muçulmano (ainda que, ele também, educado na Europa), a não-virgindade vira um peso, pra não dizer uma ameaça. A saída é recorrer aos cirurgiões plásticos e voltar pra casa com o hímen reconstituído. Ou seja, a vida de casados começa com uma mentira, o que é um péssimo começo seja para o que for. Mas, ou a noiva mente ou ela corre o risco de ser espancada, humilhada, quando não morta, pelo noivo ou por sua própria família. E dizem que nós, mulheres, agora somos livres…

A liberdade ainda é um conceito e uma prática tão complicados pro sexo feminino que tem mulheres, em tese livres, fazendo a mesma cirurgia das muçulmanas só pra aumentar o prazer dos seus parceiros. Numa matéria que li hoje na internet, um cirurgião francês que tem operado as muçulmanas alega que o pior é o que fazem seus colegas americanos: segundo o francês, nos Estados Unidos muitas mulheres reconstituem o hímen como presente de Dia dos Namorados pro companheiro. Ou seja, em vez da camisa, do livro ou do CD (pra ficar nas opções mais simples), elas “adquirem” um hímen novo, ainda que isso envolva todos os riscos de uma cirurgia.

É, feministas, vocês fizeram sua parte. Mas acho que nunca imaginaram que iria demorar tanto pra nós, mulheres, conquistarmos a liberdade de fato. Um dia a gente ainda chega lá. Um dia.

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12/06/2008
DIZER “NÃO SEI” NÃO DÓI

Quem me sugeriu falar aqui no nosso blog sobre o “não sei” foi a Marina, ex-produtora do meu programa de TV em Minas e uma amiga super querida. Ela tem 26 anos, é jornalista, adora ler (não, não é um pleonasmo), vai ao cinema, ao teatro, viaja – enfim, é uma pessoa antenada. Está por dentro de muitas coisas. Muitas, não todas – como todos nós, que recebemos uma avalanche de informações todos os dias e não sabemos como processar um centésimo, ou uma milionésima parte, do que lemos e ouvimos. Às vezes até sabemos, mas não queremos, porque o assunto não nos interessa. Outras vezes, porque a informação é muito complexa e não foi devidamente traduzida. Mas na maior parte do tempo o que ocorre mesmo é que não dá pra assimilar tantas coisas – não temos tempo pra tanto e nossos arquivos têm um limite, graças a Deus...

O que a Marina alega é que, mesmo sabendo dessa impossibilidade de ficarmos por dentro de tudo, nós nos sentimos na obrigação de saber quase tudo. Ficamos envergonhados quando não sabemos algo e isso vai desde um dado relevante pro nosso trabalho até o nome da atriz que está na novela das oito. Ou talvez eu devesse dizer “envergonhadas”, no feminino, porque, segundo minha amiga, as mulheres têm se cobrado mais do que os homens nesse sentido. Natural. Estamos ainda na fase do “ter que mostrar serviço”... O que é uma tolice, mas ainda é fato. E o fato é que isso nos faz sentir constrangimento quando não passamos na sabatina diária do “estar por dentro”.

Marina se pergunta: será que tenho mesmo que saber o que é a taxa Selic? E eu acrescento: sou obrigada a acompanhar cada decisão do Copom? Ela continua: temos que ver todos os filmes iranianos? E eu emendo: não sei comer com palitinhos. Peço aqueles grudados, quando vou ao japonês. Isso é pecado? E as tendências da moda? O que está bombando na rede? E os livros mais vendidos? E o novo chef de cozinha? Tudo isso tem que estar nos nossos arquivos? As alianças políticas, os novos escândalos, os depoimentos de ontem no Senado, a disputa presidencial nos Estados Unidos, os ciclones na Ásia, os treinos do Pato na Itália, o acidente aéreo no Sudão, as gírias que provam que estamos atualizados... como absorver tudo isso? Claro que não há como.

Diante do massacre de informações (e pseudo-informações), só há uma saída: dizer “Não sei”, “Não vi”, “Não li” e aí, se for do seu interesse, tentar se informar. Se você achar que é pior do que alguém só porque esse alguém sabe o que é a taxa Selic, lembre-se de que ele provavelmente não sabe dezenas de coisas que você sabe. Não se trata de competir, pelo amor de Deus... Disputa de conhecimentos a gente deixa pros “game shows” da TV. É só uma forma de ver que ninguém sabe tudo e nem é obrigado. Apologia da ignorância? Longe disso! É ótimo ser e conviver com pessoas bem-informadas. O que não dá é pra gente achar que tem que ser um Google ambulante. Aliás, é justamente porque não somos que o Google foi inventado. Quando o mundo cabia na enciclopédia Barsa, a gente ainda tinha a ilusão de que podia saber muito. Hoje, o “Só sei que nada sei” de Sócrates tem que ser um dos nossos mantras e está longe de ser um pecado.

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13/06/2008
CORRESPONDÊNCIA ATRASADA

Mil, mil perdões, amigas que têm mandado comentários e não receberam respostas... É que minha vida anda de cabeça pra baixo estes dias. Problemas familiares, problemas de saúde (nada sério, graças a Deus) e uma agenda cheia, com muitas viagens no meio – aí o dia acaba e você não fez nem a metade do que deveria ter feito. Hoje acordei e pensei: por onde começo? Vou pra Araraquara à tarde, pra fazer uma palestra, mas, antes disso, tenho que pintar o cabelo, que está com um metro de raiz branca, fazer supermercado, responder meus e-mails, dar uns seis ou sete telefonemas, fazer mala, buscar uma roupa no conserto, resolver um problema da conta de luz... Ficou cansada só de ler? Imagine eu... Mas sei que não estou falando nada que você não conheça de perto. Afinal, ser mulher hoje é fazer em 24 horas o que deveria ser feito em 48.

E aí a gente se pergunta duas coisas. A primeira é: vale a pena? Vale a pena correr tanto, se desgastar tanto, se preocupar tanto e desabar de cansaço quando chega o final do dia? Antes de tentar responder, vamos à segunda pergunta: tem jeito de não ser assim? O que fazer pra não termos que correr tanto e poder viver um pouco mais? Já falei aqui no blog sobre a importância das pausas, mas como incluir mais pausas na agenda feminina? Imagine um homem tendo que pintar o cabelo, ir ao supermercado, buscar roupa no conserto, fazer mala e resolver um problema com a conta de luz – tudo em uma manhã... Eles não fazem, porque não são bobos. Nós fazemos, porque somos “esforçadas”. Lembra quando a gente dizia “Fulano é tão esforçado...”, querendo dizer que Fulano não era assim nenhuma Brastemp em termos intelectuais ou artísticos, mas dava o sangue pra compensar suas limitações? Pois é, é a sensação que tenho em relação ao nosso dia-a-dia. Nós, mulheres, já provamos tudo que tínhamos que provar em matéria de competência. Não temos que compensar nenhuma limitação. Então por que será que continuamos tão “esforçadas”? Por que é que a gente insiste em fazer tudo que “tem que ser feito”, sabendo que é impossível?

Ficam as perguntas. E, junto com elas, a vontade imensa de vestir um moletom, comprar um pote de sorvete e ficar quietinha em casa, com uma pilha de DVDs pra assistir e um ótimo livro pra ler. Trocando o sorvete pela cerveja, não é assim que os homens fazem?

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