Sobre a Leila
Leila Ferreira é uma jornalista que adora colecionar histórias das loucuras e das manias femininas. É autora do livro Mulheres: Por que Será que Elas...?, da Editora Globo

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Mulheres: Por que Será que Elas...?
Moda, consumo, homens, auto-estima, culpa, sexo, estética, estresse e outros temas sob a ótica da mulher contemporânea. Busquei a matéria-prima do meu livro na vida real. Numa peregrinação por bares, restaurantes, salões de cabeleireiro e clínicas de estética, entre uma infinidade de outros locais, conversei com mais de 50 mulheres. Um esforço compensado por depoimentos e histórias tão absurdamente engraçados que, embora sejam de verdade, parecem pura ficção
 
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16/06/2008
SADE, CASANOVA & CIA. ILTDA.

Um debate que tem tudo pra dar samba – e rock e salsa e todos os outros ritmos calientes... Hoje à noite, na Livraria Martins Fontes da avenida Paulista, o escritor Flávio Braga lança três livros de altíssima voltagem, baseados em clássicos da literatura erótica universal: “Sade em Sodoma”, “Eu, Casanova, confesso...” e “Enquanto Petrônio morre”. Os três fazem parte da coleção Placere, da editora BestSeller, que ao todo terá seis volumes, e o lançamento terá um debate do autor com uma especialista em literatura erótica, a crítica e professora da PUC-SP Eliane Robert Moraes, autora de “A Felicidade Libertina” e “Lições de Sade”. Uma das atrações do debate é que ele será mediado pela mulher de Flávio Braga, a psicanalista, escritora e sexóloga Regina Navarro Lins, autora do clássico “A Cama na Varanda”.

Ontem almocei com Regina e Flávio, que moram no Rio. Ela, carioca, ele paulista, criado em Porto Alegre, e os dois interessantíssimos. Fiquei conhecendo a Regina quando fiz uma entrevista com ela pro meu programa de TV em Minas. Fiz uma, depois outra, depois a terceira, a quarta... Nossas conversas nunca tiveram fim. Sempre achei revigorante a coragem que ela tem pra dizer coisas que nos incomodam, que varremos pra debaixo dos tapetes e que ela, depois de 30 anos de consultório, sabe que é melhor expor do que esconder. Flávio é romancista, roteirista e editor e assina com Regina os três volumes da coleção Amores Comparados, também da BestSeller.

Os livros que estão sendo lançados hoje são obras de ficção. Flávio Braga faz uma espécie de intervenção nos clássicos do erotismo e cria romances a partir deles, tendo os autores dessas obras como personagens. Os habituados aos cardápios light podem se preparar: onde há Casanova e Marquês de Sade, a barra tende a pesar... Libertinagem, orgias, a busca enlouquecida pelo prazer... melhor parar por aqui.

O lançamento vai ser às 19h e o endereço é Av. Paulista, 509. Vocês que moram em São Paulo estão todos convidados. Para os outros, amanhã conto como foi o debate. Mas uma coisa é certa: com o frio que está fazendo na capital paulista, uma noite dedicada ao erotismo (ainda que literário) é uma ótima perspectiva.

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19/06/2008
O EROTISMO DA ALMA

Duas horas de debate sobre erotismo: vou resumir como?! Impossível. Eu prometi aqui que iria contar como foi o debate que marcou o lançamento dos três livros de alta voltagem do Flávio Braga, mas foram tantos pontos, tantas observações interessantes, que não dá pra seguir uma linha. Foram muitos fios, de muitas meadas – e vou puxar dois, apenas.

O primeiro foi um comentário feito pela Regina Navarro Lins, autora de “A Cama na Varanda” e casada com o Flávio. Psicanalista e sexóloga com 30 anos de consultório, Regina é otimista: acredita que estamos caminhando de fato pra uma liberdade sexual que mereça esse nome. Mas também afirmou que as pessoas hoje fazem muito menos sexo do que gostariam e de muito menos qualidade do que poderiam. Ou seja, estamos a caminho do paraíso, mas o trem ainda deve parar numas 15 estações antes de chegar lá (observação minha, não dela).

A outra observação foi feita pela Eliane Robert, doutora em filosofia, professora da PUC-SP e autora de “Sade – A Felicidade Libertina”. Perguntei a ela como avalia o comportamento das mulheres que fazem strip-tease pro parceiro sem ter vontade, simulam orgasmos ruidosíssimos, enchem o quarto de velas e incenso sem estar com a menor vontade de transar – ou seja, acabam criando um teatro pra tentar passar a imagem de mulher moderna que aparece na mídia: ousada, criativa, quente. Eliane Robert respondeu com um comentário super interessante: disse que isso não é liberdade sexual, e, sim, um adestramento feminino. Pra agradar ou impressionar o parceiro, algumas mulheres vivem, não o que brota de suas fantasias, mas o que imaginam que devem fazer. “É uma demanda que vem de fora pra dentro”, argumenta a escritora. Aí, não funciona. É “fake”. É um sexo cenográfico, um tesão que não tem eco, um desejo vazio.

Fiquei me lembrando do que diz Adélia Prado em um de seus poemas: “Erótico é a alma”. Quando o corpo segue scripts ditados pela mídia e desempenha papéis que ele não reconhece, a alma se ausenta. E sexo sem alma (não confundir com sexo sem amor, por favor) é sexo sem avesso – oco, sem ressonância, sexo de superfície. Nós, mulheres, somos mestras em querer seguir cartilhas. Estamos sempre tentando mostrar serviço – seja na empresa, na cama, na sala ou na cozinha. Parece que temos a necessidade de sermos elogiadas, aprovadas, admiradas – fazer tudo certinho. Quando a libido começa a seguir regras que achamos que devemos respeitar, o leite azeda. Não há nada mais incompatível do que regras e libido. Encenar peças entre quatro paredes pra dar de moderna e impressionar o parceiro (que às vezes nem nos impressionou tanto assim) só vai nos afastar do prazer e de nós mesmas. Aí, pra chegar lá naquele paraíso que a Regina Navarro chama de liberdade sexual, em vez de 15 estações, nós vamos ter que parar numas 105. Se desejo extraviado tivesse programa de milhagem, ainda vá lá. Como não é o caso, melhor deixar o teatro de lado e abreviar o caminho.

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20/06/2008
PRÍNCIPES E SAPOS

Moreno alto, bonito e sensual. E mais: inteligente, sensível, bem-sucedido, músculos definidos, abdome sarado, sorriso do Giannechini, pegada do José Mayer... por aí vai. Não economizamos adjetivos quando vamos descrever o homem dos nossos sonhos. O príncipe encantado que habita o imaginário de (quase) todas as mulheres é a mistura perfeita de físico, intelecto, caráter e charme. Sonhamos com ele desde sempre, esperamos com ansiedade sua chegada, ficamos tristíssimas quando ele não aparece e desmoronamos quando se transforma em sapo. O roteiro é mais do que conhecido, mas esta semana ouvi um comentário interessante sobre ele – uma variável que nunca tinha me ocorrido e faz pensar.

Foi num seminário – o II Encontro de Mulheres Contemporâneas, promovido pela AML, de São Paulo. Uma das palestrantes, a especialista em marketing de relacionamento Beatriz Cullen, afirmou que todas nós queremos príncipes. Mas a grande questão, segundo ela, é: somos princesas? Ou seja, estamos à altura do homem que queremos? Temos tantas virtudes quanto as que exigimos nele? Somos essa perfeição toda que esperamos encontrar nos nossos parceiros? Pode amarrar a carapuça... Eu amarrei.

Somos mestras em idealizar nossa cara-metade, mesmo sabendo que cara-metade não existe. E aí os candidatos que aparecem não passam no teste, pela simples razão de que não vieram ao mundo na condição de príncipes. Só que a gente se esquece que nós também não somos nenhuma Brastemp. Temos defeitos, limitações, comportamentos que irritam – isso sem entrar no mérito da estética.

Não acho que temos que passar por cima de todos os defeitos dos nossos parceiros (ou candidatos). Mas a pergunta da Beatriz Cullen nos faz ver que às vezes a gente pega pesado em matéria de exigência. Melhor fazer uma auto-crítica antes de traçar o perfil do homem que se quer. Sapo nenhuma de nós merece. Mas querer príncipe encantado é muito. Corremos o risco de passar a vida esperando por um ou implicando com o companheiro que está do nosso lado. Melhor deixar por menos - e torcer pra que eles, os homens que nos interessam, adotem a nossa postura e tenham a mesma humildade...

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23/06/2008
AMIGA DE INFÂNCIA: PROCURA-SE

Ela conhece nosso avesso e nos perdoa por ele – o que não quer dizer que seja cúmplice das nossas falhas. Fica feliz quando nos vê felizes – e nem precisa saber o motivo da nossa felicidade. Conversa conosco sem palavras – um olhar basta. E, quando precisamos das palavras, ela sabe como e quais usar. Quando a gente termina um relacionamento que parecia perfeito, só ela entende por quê. E, quando começamos um relacionamento com um homem mais do que imperfeito, ela nos faz ver o tamanho da bobagem que estamos fazendo, sem a necessidade daqueles sermões que não levam a nada.

É por essas, e por muitas outras, que todas nós temos que ter uma ou algumas amigas de infância do nosso lado, mesmo que fisicamente estejam do outro lado do planeta. Amigas pra gente tratar a pão-de-ló, carregar água na peneira pra elas, valorizar com a intensidade com que valorizamos as coisas mais importantes da vida. Aliás, muitas das coisas que julgamos importantes são menos importantes do que elas – nossas amigas verdadeiras.

Tudo isso, toda essa longa introdução, só pra dizer que vou escrever sobre esse tema na minha coluna da Marie Claire, provavelmente a de setembro, e gostaria muito que vocês, minhas amigas (e meus amigos) de hoje, me dissessem o que acham das amizades de sempre, as amizades eternas: comentários, histórias, passagens curiosas, engraçadas ou comoventes – enfim, o papel e o significado dessas pessoas que são família, mesmo sem ser, conhecem nossas histórias de cor e ainda assim ouvem tudo de novo, com prazer, choram e riem conosco como se fossem delas nossas dores e nossas alegrias e trazem suas tristezas e suas conquistas pra repartir conosco, sabendo que estamos de portas e janelas abertas pra acolhê-las. Você tem alguém assim? Consegue imaginar a vida sem essas amizades de infância? O que seria seu passado sem elas? E que graça teria seu futuro sem elas por perto? Eu não consigo imaginar nenhum tempo da minha vida sem a presença da Cristina, por exemplo, que é a irmã que nunca tive, e que atravessa São Paulo pra me levar uma sopa quentinha quando estou doente – do mesmo jeito que repartia seus ovos de Páscoa comigo quando éramos crianças. A vida sem ela, ou a Fatinha, ou a Heloísa ou outras que me ajudaram a inventar a pessoa que eu sou, é algo impensável, um caminho sem referências, um existir incompleto. E pra você, quem tem esse papel?

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24/06/2008
“TIA” NINGUÉM MERECE!

Foi na estrada de São Paulo pra Araxá. Depois de dirigir mais de cinco horas, parei, exausta, pra lanchar e pedi um café e um pão de queijo. O funcionário, de seus 40 e poucos anos, me serviu o pão de queijo e gritou pro colega que estava do outro lado: “Ô, dá um café pra tia aí!”. Foi como se ele tivesse me dado um tapa na cara. Não que eu nunca tivesse sido chamada de “tia”. Já fui algumas vezes, por guardadores de carros ou adolescentes pedindo dinheiro nos sinais de trânsito. Mas assim publicamente, com todo mundo ouvindo, e por um homem que já saiu da adolescência há pelo menos três décadas, foi a primeira vez.

Não devia, mas reagi na hora: “Tia?!”, perguntei. “Você me chamou de tia?”. Nesse momento, três “tios” que estavam tomando cerveja no balcão interromperam sua atividade e se prepararam pra acompanhar o barraco. Que, graças a Deus, não aconteceu. Posso ter perdido a juventude, mas a classe eu me esforço pra manter... Com uma calma que eu estava longe de sentir e um sorriso que eu não sei de onde saiu, continuei: “Sei que não sou garota mais. Aliás, estou longe disso... Mas qualquer mulher prefere ser chamada de bruxa a ser tratada de tia. Você pegou pesado, amigo. ‘Tia’ ninguém merece!”. Um dos “tios”, querendo melhorar a situação, soltou a segunda pérola da tarde: “Você ainda tá na ativa, né?”.

A cena durou uns cinco minutos e acabou com todo mundo rindo, inclusive eu (do quê, não sei). Só sei que do primeiro “tia” dito com letras maiúsculas a gente nunca esquece, ainda mais partindo de um homem que tem idade pra ser seu irmão. Acho que posso dividir minha vida em antes e depois dessa parada a caminho de Araxá. Não é à toa que estou com aquele pão de queijo atravessado até hoje. Amadurecer é uma coisa. Virar tia é outra – e muito, mas muuuiiito diferente...

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26/06/2008
É MAIS EM CIMA...

Foi Isabel Allende quem disse uma vez: o tão falado (e tão procurado) ponto G fica no ouvido. Isso mesmo. Não há nada que estimule tanto uma mulher quanto as palavras certas ditas na hora exata. E por “certas” entenda-se certas para aquela determinada mulher, porque cada uma gosta de ouvir um tipo de coisa. Uma se excita ouvindo palavras românticas, outra gosta das frases maliciosas de duplo sentido (de preferência não-óbvio). Algumas amam ouvir versos (curtos, por favor) de poetas consagrados. Outras preferem um repertório mais punk – onde cabem diálogos picantes e uma ou outra ousadia (às vezes todas as ousadias).

O homem que sabe usar as palavras sai na frente. Uma frase dita no tom certo vale mais do que mil gestos. Se for acompanhada pelo olhar adequado, aí ninguém segura. E isso vale pra qualquer momento – não só na hora da transa. A frase carinhosa, o elogio feito de uma forma original, a palavra que nos faz balançar, o diálogo temperado pela excitação da conquista – tudo isso vai estendendo o leito da sedução, forrando o chão pro amor, pondo a mesa pro banquete dos sentidos.

Se os homens soubessem como as palavras são importantes, não fariam nunca o que fez o marido de uma amiga minha. Outro dia, os dois, casados há uns 12 anos, estavam tomando um vinho num restaurante romântico e ela, sentindo uma “onda de amor” por ele, como costuma descrever, disse no tom mais apaixonado: “Se você soubesse como eu gosto de você...”. Ele respondeu com uma palavra: “Obrigado”. Assim, tipo agradecimento por um elogio recebido na reunião da diretoria da empresa. Minha amiga engoliu em seco, depois engoliu o vinho e por último engoliu o comentário que teve vontade de fazer. Disse que a noite terminou em frente à TV, com zero de romance e nenhuma incursão na região do ponto G – ou melhor, dos pontos G: o dos sexólogos e o da Isabel Allende. Nada foi dito. Nada foi feito. Tudo por causa das quatro sílabas daquele “obrigado”. Ah, se os homens soubessem (e claro que alguns sabem) o que a linguagem representa pro sexo feminino... Pro bom entendedor, uma palavra basta. Pra nós, mulheres, às vezes não. Principalmente se a palavra em questão for um “obrigado” como resposta a uma declaração de amor. Na melhor das hipóteses, é muita falta de imaginação...

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27/06/2008
ENGORDEI PORQUE...

Me perdoe, Mary, minha amiga mais que querida, mas vou passar na frente e contar aqui a história que você me contou e deve virar texto em breve. Explico: Mary Figueiredo Arantes é uma designer de acessórios talentosíssima que, não contente com a beleza das peças que cria, ainda escreve crônicas que chegam a doer, de tão bonitas (faz sentido isso? Pra mim faz).Tudo que ela vive e tudo que ouve vira crônica e a passagem que me contou outro dia com certeza vai virar também, mas vou dar só um preview aqui.

Seguinte: Mary estava dividindo um quarto de hotel com uma amiga e se preparavam pra ir a uma festa quando a amiga pediu que ela fechasse o zíper de seu vestido. Quando ela se virou, Mary constatou que entre um lado e outro do zíper havia uns 10 centímetros de pele, ou seja, sem chance do vestido fechar. Minha amiga puxou, puxou, chegou a suar, mas... “mission impossible”! Corpo e vestido, naquele momento, eram incompatíveis. Consternada, Mary deu a notícia à amiga, que, mais consternada ainda, respondeu simplesmente: “Meu vestido emagreceu!”.

Assim somos nós, mulheres. Pressionadas pela ditadura da estética, usamos nossa criatividade (ilimitada, como sabemos) pra tentar justificar qualquer alteração de peso (pra mais, é claro). Na adolescência, a culpa é da adolescência: alterações hormonais. Na menopausa, a culpa é da menopausa: de novo, alterações hormonais. Na gravidez, culpa da gravidez (a única justificativa inquestionável). E no pós-parto, culpa do pós-parto.

Tem também a clássica “retenção de líquidos”: o jeans não fecha porque estamos “retendo muito líquido ultimamente”. Precisamos até marcar uma consulta pra ver o que está havendo. Ou, uma desculpa um pouquinho mais complexa (e infinitamente mais vaga): “Meu metabolismo mudou”. Essa serve pra tudo – e quem é que vai duvidar? Teriam que pedir pelo menos um hemograma nosso pra saber se estamos mentindo.

Por último, a mais recorrente de todas as desculpas: a ansiedade. Em tempos de stress como os que estamos vivendo, nunca vão faltar motivos pra ficarmos ansiosas, e a ansiedade, você sabe... A gente come mais, sente falta de doces, precisa daquele chocolate, ataca a geladeira às duas da madrugada...

Enfim, do stress à retenção de líquidos, nós nos valemos de tudo pra sermos absolvidas pelo pecado dos quilos a mais (o fato de gordura ter virado pecado fica pra outro post). Mas dizer que o vestido emagreceu é a primeira vez que eu ouço – e adorei! Só pra concluir a história: a dona do vestido, como não tinha nenhuma opção mais gordinha na mala, foi com o magro mesmo e resolveu o problema do espaço entre as duas partes do zíper usando uma bela pashmina. Por sorte, a pashmina ficou firme nos ombros a noite toda. Assim como sua dona, ela não tinha emagrecido.

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30/06/2008
APRENDER FAZ BEM

Millôr Fernandes disse uma vez que, se Deus fosse contra a paquera, não teria nos dado um pescoço com tanta mobilidade. Concordo. Nossa anatomia nos permite olhar em volta, explorar o ambiente e descobrir possibilidades – mas não só no terreno amoroso ou sexual. Acho que esse pescoço móvel e esse olhar que pode passear por tantas paisagens devem nos estimular a buscar o novo em todos os sentidos, descobrir o que não sabemos, entrar em contato com o que não conhecemos – em resumo, aprender. Poucas coisas são tão estimulantes quanto aprender e, não sei por quê, muitas vezes nos esquecemos disso. Passamos longos períodos sem ler, ou sem fazer um curso, ou aprender a falar uma língua, fazer uma viagem, assistir a uma palestra, ver um documentário bacana na TV, conversar com alguém que nos ensine algo ... enfim, somos acometidos por uma espécie de inércia, de estagnação, e isso rouba da vida um dos aspectos mais interessantes que ela tem.

Estou dizendo isso porque vi um exemplo contrário neste último final de semana. Participei, aqui em Araxá, do II Congresso de Decoração e Design promovido pela AMIDE (Associação Mineira de Decoradores de Nível Superior), que reuniu oito palestrantes interessantíssimos, entre eles o maestro João Carlos Martins, o estilista Ronaldo Fraga e a especialista em tendências de consumo Jody Turner. Como mestra de cerimônia do evento, tive a sorte de poder acompanhar tudo e amei tudo que ouvi, mas o que mais me chamou a atenção foi a atitude de Sergio Rodrigues, um dos arquitetos e designers mais conceituados e premiados do país. Sergio estava encarregado de fazer a palestra de encerramento do congresso, que durou três dias, ou seja, sua obrigação, se podemos chamar assim, era estar no auditório só no final do último dia. Mas ele, aos 80 anos de idade, assistiu a todas as palestras. Era um dos primeiros a chegar, fazia perguntas, participava, e só saía ao final da programação. Ou seja, um homem que sabe tanto, já viveu tanto e poderia estar ali, entre tanta gente que o reverencia,com o intuito único de ensinar, se colocou na posição de aprender. Trouxe na bagagem curiosidade, inquietação e humildade – e acabou sendo um dos participantes mais jovens do congresso, apesar de suas quatro décadas de vida.

É o mesmo espírito do escritor, educador e psicanalista Rubem Alves. Há poucos dias me sentei perto dele em um vôo, acho que de Maceió pra Belo Horizonte, e, quando o avião pousou, Rubem Alves perguntou a uma passageira que estava em sua fileira que livro era aquele que ela estava lendo. Disse que, como ela tinha lido durante o vôo todo, com a maior atenção, ele tinha ficado curioso – e queria saber o título e o autor. O livro era “As Benevolentes”, de Jonathan Littell, uma obra de mais de 900 páginas que conta as memórias de um oficial nazista que participou dos horrores da Segunda Guerra. Rubem Alves examinou a capa com interesse, agradeceu e voltou a se sentar pra continuar seu vôo até Campinas.

Rubem, aos 75 anos, e Sergio, aos 80, são exemplos de profissionais que produzem com a maior competência porque não pararam de aprender. São dois mestres que se recusam a aposentar o olhar e correm atrás do novo com o vigor que muitos adolescentes não têm. Saí daquele avião querendo ler tudo que encontrasse pela frente. Saí do congresso de Araxá querendo assistir a mil palestras. Aprender é melhor que qualquer creme anti-rugas e quase qualquer remédio. Que o digam nosso jovem escritor e nosso jovem arquiteto.


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