15/07/2008
MAIS UM CAPÍTULO
Imagine a situação: você está sentada numa festa com seu namorado ou marido e um homem que você nunca viu chega e tira, não você, mas ele, o seu companheiro, pra dançar. Foi o que me aconteceu aqui em Chennai. Na festa de congraçamento do congresso, os médicos tiravam uns aos outros pra dançar e só eventualmente convidavam alguma mulher pra se juntar a eles. Primeiro, eram só indianos convidando indianos. Depois os estrangeiros passaram a ser chamados também e nessa o Fernando, com a cara mais assustada do mundo e tentando fingir naturalidade, teve que ir pra pista de dança com dois cavalheiros de bigode, terno e gravata. Dançavam todos separados, sem se tocar, mas formando pares e saltitando nas músicas mais animadas. E o mais engraçado foi ver a reação do Fernando no primeiro convite: ele arregalou os olhos na frente do colega, apontou pra ele e me disse, como se eu não estivesse vendo: “Leila, ele tá me chamando pra dançar!”. Tradução: “Quê que eu faço?!”. Empurrei meu ex-marido pros braços do indiano e enfrentei com galhardia minha sessão de chá-de-cadeira em Chennai.
A festa teve duas outras cenas curiosas. A primeira foi na entrega de medalhas. Oito médicos de diferentes países receberam uma medalha de ouro pelo trabalho de pesquisa que vêm desenvolvendo (entre eles, o Fernando). Foram sete homens e uma mulher, uma médica indiana. Um ministro do governo da Índia colocou a fita com a medalha no pescoço de todos eles, menos da médica, pra evitar o contato físico com uma mulher. Ela recebeu a fita das mãos do ministro e dependurou, ela mesma.
A outra cena aconteceu na hora do jantar. Eu já sabia do costume indiano de usar as mãos, ou melhor, a mão direita, pra levar à boca o que se come no almoço e no jantar, mas imaginava que isso era feito só com os alimentos mais sólidos ou mais secos. Não. Na festa foram servidos vários pratos – salada de pepino e tomate com iogurte, arroz, batata “sautée”, carneiro, queijo em cubos no molho de tomate, spaghetti com vários tipos de molho – e tudo, absolutamente tudo, foi comido sem talheres por boa parte dos convidados Você conversar com alguém que está comendo um spaghetti com a mão não é fácil. Tem um condicionamento histórico que nos faz sentir no minimo aflição com a cena. Mas a última coisa que quero aqui é julgar. Quem somos nós, com nossa cultura tão cheia de falhas, pra criticar os hábitos de outro povo? Melhor nem tentar. Mudando de tema. Hoje peguei um táxi e pedi ao motorista que me mostrasse onde vivem os pobres, a classe média e os ricos de Chennai. Passamos por bairros residenciais com casas enormes, mas sem a ostentação das nossas “casas de rico”. Vimos prédios simples onde, segundo o motorista, vivem famílias de classe média. E por fim vimos os pobres, aliás, os muito pobres, que ficam nas ruas ou em áreas sem qualquer sinal de urbanização – locais que se parecem com aterros sanitários e onde as crianças brincam no meio do lixo. Perguntamos ao motorista se há muita violência nessas áreas e ele disse que não, que qualquer um pode passar ali a qualquer hora sem o risco de ser assaltado. Depois pedi que parasse perto de um grupo de pessoas que vivem nas ruas na região central, entre elas duas mulheres – mãe e filha – que fazem os tradicionais enfeites de flores de jasmim que as indianas usam em seus cabelos. Fiquei ali uns 15 minutos, conversando com elas e vendo o trabalho que fazem. A mãe, de 35 anos, parece ter mais de 50 e a filha, de 23, tem cara de 18. O motorista do táxi serviu de intérprete, já que as duas só falam tamil, a lingua do estado de Tamil Nadu, onde fica Chennai. “Moram” na rua há anos e vivem da venda desses fios de flores que custam 10 rúpias, menos da terça parte de um dólar. Gentis, me convidaram pra sentar com elas e responderam a todas as perguntas com paciência. Olhei as roupas coloridas daquelas duas mulheres, a beleza da filha, o sorriso triste, mas acolhedor, da mãe e por alguns segundos me esqueci de que estava entre pessoas castigadas pela miséria. Saí dali com meu fio de jasmins nos cabelos e um peso enorme na consciência. No Brasil, a miséria fala baixo. Aqui na Índia ela grita. E nós, que gostamos tanto de nos fazer de surdos, ficamos sem ter pra onde correr. Ainda bem. Quem sabe assim a gente desperta?
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14/07/2008
DIÁRIO DA ÍNDIA
Terceiro dia em Chennai, a quarta maior cidade da Índia. Tudo é novo. Tudo exige um olhar que ainda não tenho. Mulheres em saris de mil cores, homens usando aquele tecido amarrado como Gandhi, vacas atravessando as ruas, ruas cheias de carros, motos, caminhões, ônibus e rikishaws e todos – carros, motos, caminhões e rikishaws – sendo conduzidos por espíritos destemidos. Não existe adjetivo capaz de descrever o trânsito daqui. Qualquer tentativa de explicar como se comportam os motoristas indianos fica aquém do que se vê em Chennai e, pelo que me disseram, no resto da Índia. A temperatura está por volta dos 35 graus e saímos para um passeio numa van com um grupo de médicos que estão participando do congresso. O motorista nos cumprimenta com uma expressão serena, assume o volante e a serenidade termina aí. Mergulhamos numa nova modalidade de esporte radical. Em duas pistas, não sei como, circulam três veículos. Um em cima da faixa central e os outros dois no que sobra de espaço – o que é muito pouco. Quem é maior vai empurrando os outros e todos – absolutamente todos – buzinam sem parar. Não, não é força de expressão, é sem parar mesmo. Com dez minutos no trânsito, eu já estava sonhando com uma Neosaldina. Nunca vi - e tenho certeza de que não existe - nada parecido. Moro em São Paulo e já morei na Cidade do México. Nada me preparou pra realidade do trânsito daqui.
Saímos da van completamente atordoados e, primeira parada: um parque de crocodilos. Naquela altura, nem uma visita a um ashram ou um encontro com o Dalai Lama nos acalmaria. E nosso guia achou que era hora de vermos crocodilos! Depois ele nos levou pra conhecer um farol e o passeio terminou com um almoço temperado – claro - com muuuuita pimenta. Sorvete de sobremesa, pra abrandar o fogo na boca e no estômago, e a volta na van – uma hora de buzinas, manobras radicais e a sensação, no final, de que tínhamos sobrevivido a algo que oferecia poucas chances de sobrevivência. Com sorrisos amarelos, agradecemos o passeio e viemos nos recuperar no hotel – que é o máximo, diga-se de passagem. O Taj Coromandel tem quartos ótimos e todos os mimos que qualquer hóspede gosta de ter. No banheiro, mil vidrinhos com shampoos cheirosos e cremes. No quarto, robes, chinelos, flores naturais trocadas diariamente e chocolates. À noite, quando arrumam a cama, deixam junto com os chocolates uma listinha com vários lembretes, entre eles: “Você já ligou pra sua família hoje?”, “Já checou as mensagens de voz?”, “Já tomou seus remédios?”.
Estou aqui escrevendo o post no business center do hotel e pedi uma xícara de chá pra esquentar, por causa do ar condicionado. O chá veio num bule de prata, numa bandeja linda, com biscoitinhos e um lírio perfumado. O garçom, gentilíssimo, me serviu, deixou a bandeja aqui do meu lado e me desejou um ótimo dia. É o outro lado do país, a contrapartida do trânsito insano que se enfrenta aqui. Delicadeza, respeito, pequenos rituais que deixam o cotidiano mais leve – isso também é a Índia.
Sei que tem gente que vai dizer que ficar num hotel cinco estrelas é coisa de turista que não quer conhecer a realidade de onde está. Não concordo. Mas cada um tem o direito de escolher sua forma de viajar. Só sei que quero ver muito e aprender muito com o que estou vendo, independente do número de estrelas dos hotéis. E já tenho um punhado de coisas pra dividir com vocês. Amanhã conto mais. Ah, e antes que eu me esqueça: estava lendo um dos jornais daqui, o “Times of India”, me parece, e fui conferir a lista dos livros mais vendidos. Em terceiro lugar, passando na frente de autores como John Grisham, está Paulo Coelho com “Brida”. E, na seção de passatempos, havia um teste pra adivinhar de quem era o sorriso da foto: de Ronaldo Fenômeno ou do Ronaldinho gaúcho? Era do Ronaldinho, que é estrela também aqui.
Amanhã conto como foi a festa do congresso, com homens tirando homens pra dançar. Tomei chá de cadeira!...
Bjs.
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11/07/2008
DIÁRIO DE UMA VIAJANTE APRESSADA
09/07/08
14h30: Sala vip da Air France em Guarulhos. Aqui começa a viagem – ou deveria. Luminárias de design, “finger sandwiches”, passageiros com ar de bem-sucedidos. Um garçom atento. Uma recepcionista solícita. Tudo aqui funciona, mas não sei como dar o primeiro passo em direção à Índia. O encontro com o país dos ashrams definitivamente não começa aqui. O vôo é São Paulo-Chennai (antiga Madras), com escala em Paris. Vinte e duas horas nas nuvens. Enquanto não anunciam o embarque, vou observando o ambiente. Do meu lado, um francês elegantérrimo fala no celular e, ao mesmo tempo, tecla alguma coisa no laptop. A fala é agitada e ele escreve rapidamente. É a imagem do stress. Em frente, duas brasileiras falam (alto) sobre cremes anti-rugas e dietas. Onde está a Índia?
Hora de embarcar. Por razões que não vêm ao caso explicar, vamos na classe executiva (e por que será que eu me sinto na obrigação de explicar?). No jantar, foie-gras na entrada e, de prato principal, salmão ou codorna recheada. Saudades do bife de Araxá… Como diz um amigo meu: “Leila, você precisa refinar esse paladar…”. Vôo tranqüilo. Na programação da TV, “Desperate Housewives” e CSI. Começo a assistir CSI, que eu amo, mas meus amigos Grisson, Nick e Warrick não combinam com este começo de viagem pra Índia. Desligo a TV e abro um livro. O sono vem, vem outra refeição que meu paladar não merece (ou não reconhece) e chegamos a Paris. Dia de céu azul, do alto dá pra ver o Palácio de Versalhes e a Torre Eiffel. Mas minha cabeça está na Índia.
Na escala, mais uma sala vip, mas aqui sinto que a viagem começa. Mulheres de saris coloridos, crianças com olhos de jabuticabas imensas, homens de bigodes fartos e pele escura. Uma indiana que deve morar na França pergunta carinhosamente à filha que está no seu colo: “Qui est la plus jolie? Toi! Tu es la plus jolie!”. Estranho aquele diálogo em francês. Parece filme dublado. Embarcamos e vamos contemplando os picos nevados dos Alpes suíços. Agora sobrevoamos a Áustria. No meio da montanha, um lago de um azul absurdo. Um avião passa por nós, no sentido contrário. A que velocidade estaremos? Lá embaixo, a natureza parece estática, eterna. No almoço, mais foie-gras e galinha-da-guiné de prato principal. Estou me sentindo num aviário. Ganso, galinha, codorna… Adoraria ter essas aves todas no meu quintal. Mas no meu estômago, sei não…
Durmo e, quando acordo, estamos sobrevoando o Golfo Pérsico. Dali a pouco o Paquistão aparece na tela do monitor e aí os nomes das cidades da Índia começam a surgir. Fernando e eu brindamos com chá e, à uma da manhã ((quatro e meia da tarde no Brasil), nosso avião pousa em Madras, aliás, Chennai (tenho que me acostumar com o nome).
No aeroporto, a primeira coisa que vejo, na vitrine de uma livraria fechada, com as luzes semi-apagadas, é um livro do Paulo Coelho: “The Witch of Portobello”. Enfrentamos uma longa fila na imigração, mas o desembarque é tranqüilo. Lá fora, uma multidão espera pelos passageiros e um motorista descalço nos leva em seu táxi, dirigindo insanamente e buzinando como se o carro tivesse perdido o freio. Agora, sim, estamos na Índia.
Fazemos o check-in num hotel cinco estrelas, onde o Fernando (meu ex-marido e sempre-amor) vai participar de um congresso médico, somos recepcionados por dois indianos gentilíssimos e bem-humorados (às duas da manhã) e vou dormir ainda sem acreditar que estou aqui. Que país é este? Temos 12 dias pra tentar descobrir.
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08/07/2008
DESPEDIDA & RECADOS
Quase hora de ir pra Índia. E eu aqui, no meu quarto-e-sala em Pinheiros, tropeçando em malas, sacolas e roupas, escrevendo a coluna da Marie Claire, marcando pra fazer unhas e pintar o cabelo (por quê que ele cresce tão depressa?), constatando que ainda tenho que passar no banco, na farmácia, na locadora... Ai, ai, ai! Mas no final dá certo.
E, antes de ir, alguns recados. Só alguns, por absoluta falta de tempo. Pra vocês que mandam comentários, e que eu gostaria de estar respondendo diariamente, mil desculpas. Hoje vou responder só os dos posts “Dando um tempo”, “É brincadeira” e “Aprender faz bem”. Vamos lá.
“APRENDER FAZ BEM”:
- Oi, Lídia, que bom que você viu o texto! E obrigada por me presentear com essa história. Se não fosse sua vontade de aprender, eu não teria constatado a do Rubem Alves. Beijos! - Olá, Karina, concordo com você: a perspectiva infantil dá um sentido diferente a tudo. Pena que perdemos isso tão cedol. - Renata, beijos carinhosos pra você. É sempre uma delícia ler seus comentários. - Oi, Gisele, já caminhou hoje? - Simone e Cristina, beijos pra vocês. - Camila, super obrigada pelas palavras carinhosas! - Olá, Mônica Loureiro, concordo com você e Gisele. - Oi, Mônica Paiva, parabéns pra sua mãe e beijos pra ela (e pra você também, claro!) - Olá, Alessandra, que bom te encontrar sempre nesta minha casa virtual!
“É BRINCADEIRA!”
-Renata, aos 29 a coisa já está pegando?! - Teresa, aos 24 é demais! - É, Gisele, aos 26 também é de matar... - Rafa, de vez em quando um homem passa pelo que nós, mulheres, enfrentamos cotidianamente... - Eliza, então o ponto G ainda não foi identificado na América Central? - Fátima, “senhora” também irrita... - Donna, põe “toscos” nisso... - Bem-vinda, Macicler! Junte-se a nós. - É, Consuelo, o “Dona Maria” é clássico também. - Sandra, adorei o “se entender na horizontal”. Na vertical ainda temos (nós e eles) um longo caminho a percorrer. - Marcos, obrigada elo comentário, feito com a delicadeza de que nós, mulheres, tanto gostamos. - Monica, beijos mineiríssimos pra você.
“DANDO UM TEMPO”
-Amanda, claro que você pode indicar o post no seu weblog. Fico super feliz! - Denise do Egito, assim que voltar de viagem vou “passear” pelo seu blog. - Lenita, faço minhas suas palavras. - Alessandra, concordo: o equilíbrio está no meio. - Luzinha, obrigada com o carinho pelo blog. - Sheila, “o que precisa ser feito” geralmente precisa ser feito, mas não é sempre. Às vezes (muito de vez em quando...) dá pra trocar pelo nada fazer...
Beijos pra todos. Até a volta. E tomara que eu mereça esta chance que estou tendo de conhecer a Índia. Fui, aliás, vou!!!
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08/07/2008
DESPEDIDA & RECADOS
Quase hora de ir pra Índia. E eu aqui, no meu quarto-e-sala em Pinheiros, tropeçando em malas, sacolas e roupas, escrevendo a coluna da Marie Claire, marcando pra fazer unhas e pintar o cabelo (por quê que ele cresce tão depressa?), constatando que ainda tenho que passar no banco, na farmácia, na locadora... Ai, ai, ai! Mas no final dá certo.
E, antes de ir, alguns recados. Só alguns, por absoluta falta de tempo. Pra vocês que mandam comentários, e que eu gostaria de estar respondendo diariamente, mil desculpas. Hoje vou responder só os dos posts “Dando um tempo”, “É brincadeira” e “Aprender faz bem”. Vamos lá.
“APRENDER FAZ BEM”:
- Oi, Lídia, que bom que você viu o texto! E obrigada por me presentear com essa história. Se não fosse sua vontade de aprender, eu não teria constatado a do Rubem Alves. Beijos! - Olá, Karina, concordo com você: a perspectiva infantil dá um sentido diferente a tudo. Pena que perdemos isso tão cedol. - Renata, beijos carinhosos pra você. É sempre uma delícia ler seus comentários. - Oi, Gisele, já caminhou hoje? - Simone e Cristina, beijos pra vocês. - Camila, super obrigada pelas palavras carinhosas! - Olá, Mônica Loureiro, concordo com você e Gisele. - Oi, Mônica Paiva, parabéns pra sua mãe e beijos pra ela (e pra você também, claro!) - Olá, Alessandra, que bom te encontrar sempre nesta minha casa virtual!
“É BRINCADEIRA!”
-Renata, aos 29 a coisa já está pegando?! - Teresa, aos 24 é demais! - É, Gisele, aos 26 também é de matar... - Rafa, de vez em quando um homem passa pelo que nós, mulheres, enfrentamos cotidianamente... - Eliza, então o ponto G ainda não foi identificado na América Central? - Fátima, “senhora” também irrita... - Donna, põe “toscos” nisso... - Bem-vinda, Macicler! Junte-se a nós. - É, Consuelo, o “Dona Maria” é clássico também. - Sandra, adorei o “se entender na horizontal”. Na vertical ainda temos (nós e eles) um longo caminho a percorrer. - Marcos, obrigada elo comentário, feito com a delicadeza de que nós, mulheres, tanto gostamos. - Monica, beijos mineiríssimos pra você.
“DANDO UM TEMPO”
-Amanda, claro que você pode indicar o post no seu weblog. Fico super feliz! - Denise do Egito, assim que voltar de viagem vou “passear” pelo seu blog. - Lenita, faço minhas suas palavras. - Alessandra, concordo: o equilíbrio está no meio. - Luzinha, obrigada com o carinho pelo blog. - Sheila, “o que precisa ser feito” geralmente precisa ser feito, mas não é sempre. Às vezes (muito de vez em quando...) dá pra trocar pelo nada fazer...
Beijos pra todos. Até a volta. E tomara que eu mereça esta chance que estou tendo de conhecer a Índia. Fui, aliás, vou!!!
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07/07/2008
DESTINO: ÍNDIA
É isso mesmo, amigas: vou pra Índia!!! Depois de amanhã pego um avião da Air France em São Paulo e, depois de 22 horas de vôo com uma escala em Paris, desembarco em Madras. Lembram que eu disse aqui que talvez fosse fazer essa viagem com meu ex-marido (e meu sempre-amor)? Pois é, a viagem saiu. Nós vamos passar 12 dias mergulhados numa das culturas mais fascinantes do planeta e é claro que vou contar tudo – quero dividir com vocês as impressões, as sensações, o impacto que certamente sentiremos diante daquela espécie de continente onde convivem tantas línguas, tantas religiões e mais de um bilhão de pessoas.
Estou aqui fazendo as malas. Como vamos pegar calor forte (além de tempestades, porque é a época das monções), o guarda-roupa é básico: calças leves e camisetas. Mas, no que vai sobrar de espaço na mala, tenho que fazer caber alguns itens essenciais: ausência de preconceito, pra ver o novo com novos olhos; humildade, pra saber que nada sei do que estou vendo ali e, portanto, não posso julgar; tolerância, pra agüentar, entre outras coisas complicadas, o festival de buzinas que é a trilha sonora por excelência da Índia; vontade de aprender, pra aproveitar a infinidade de lições que vou encontrar pelo caminho; coragem, muita coragem, pra enfrentar os macacos que nos puxam pelas roupas, roubam nossos lanches e bolsas e vão me matar do coração, porque morro de medo de macacos, e, por último, um caderno bem grosso, pra anotar tudo que for possível traduzir em palavras – e sei que é impossível traduzir a Índia.
Enfim, amigas, estou super feliz, com medo, animada, estressada – tudo misturado, tudo ao mesmo tempo agora. Mas sei que vai ser uma experiência única e vai valer a pena. Amanhã a gente ainda se fala. Tenho uma lista de recados pra vocês que mandam comentários que não tenho tido tempo de responder (ah, o tempo!) e, claro, vou me despedir direito – como pede a ocasião.
Bjs e até.
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04/07/2008
DANDO UM TEMPO
Uma vez entrevistei no presídio de segurança máxima de Taubaté o cirurgião plástico Hosmany Ramos, que trocou a medicina e a vida de personagem das colunas sociais pelo mundo do crime. Hosmany é escritor, já teve seus livros publicados por uma editora de prestígio da França e disse uma coisa na entrevista que me fez pensar. Falando sobre seus dias na prisão (ele está preso há mais de 20 anos), o ex-cirurgião do “high society” carioca observou que ali ele tinha, de sobra, o produto mais escasso do mundo, o grande luxo dos dias de hoje: tempo. Tempo pra ler, tempo pra escrever, tempo pra pensar, tempo pra sentir... Claro que ter tempo à custa de perder a liberdade não é bom. Do contrário, Hosmany Ramos não teria tentado fugir tantas vezes da prisão. Mas uma coisa é certa: ter tempo, hoje, é um luxo. Talvez o maior de todos que podemos ter.
Como disse o filósofo (que não me canso de citar) Mario Sergio Cortella, hoje a gente olha pro relógio, não pra ver que horas são, mas pra saber quanto tempo falta. Estamos sempre atrasados, sempre correndo, sempre dizendo que está “em cima da hora”. É o que ele chama de turbinamento do cotidiano. Temos a ilusão de estar fazendo tudo cada vez mais rápido, mas, ao contrário do que seria de se esperar, não nos sobra tempo. O tempo que em tese economizamos, ao fazer tudo correndo, não nos proporciona mais tempo livre. Logo arranjamos mais coisas pra fazer - e pra nos fazer correr. E os livros que queremos ler, os filmes que queremos assistir, as pessoas queridas que queremos encontrar e os CDs que amamos ouvir vão ficando esquecidos.
Que tempo é esse que nos faz esquecer o que é bom e o que nos faz felizes? Que corrida é essa que nos premia com um cansaço crônico e a permanente sensação de vazio? Ontem me lembrei das palavras do Hosmany Ramos olhando a pilha de livros ao lado da minha cama – livros que escolhi amorosamente e que amorosamente me olham todos os dias, esperando a hora de nos encontrarmos. Não tenho tempo pra eles, assim como não tenho tempo pra ligar pras minhas amigas, pra ir pra Londrina ver minhas sobrinhas que estão crescendo e cuja infância nunca mais irá se repetir – enfim, não tenho tempo pra fazer a maioria das coisas que me dá prazer, me faz crescer e faz a vida ter sentido.
Ontem, por mais incrível que pareça, senti inveja do Hosmany Ramos. Tive vontade de ter o tempo que ele tem pra ler. Cheguei a pensar, por uns 30 segundos, que não deve ser tão ruim ficar preso. Aí me dei conta do tamanho da loucura. Quando a gente começa a ter inveja de quem está num presídio de segurança máxima é porque alguma coisa está intrinsecamente errada com o estilo de vida que escolhemos ter.
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01/07/2008
É BRINCADEIRA!!!

Eu não acredito. Juro que não acredito. Há poucos dias falei aqui sobre minha indignação por ter sido chamada de “tia” numa lanchonete na estrada pra Araxá. O quarentão que me atendeu pediu, gritando, pro colega, que desse “um café pra tia”. Todo mundo ouviu, todo mundo riu, e eu fui com aquele “tia” atravessado na garganta até Araxá. Pois não é que hoje, na volta pra São Paulo, eu fui presenteada com mais uma pérola? Pedi um café (em outra lanchonete, claro, porque daquela vou dar um tempo) e, quando me entregou a xícara, o atendente disse: “Aqui seu café, patroa”.
“Patroa” ou “tia”? Qual palavra nos incomoda mais? Qual das duas sai ganhando em matéria de atentado à auto-estima feminina? No meu livro eu brinco que, na nossa cultura, depois de uma certa idade a mulher vira ONG. Ela cumpre um papel, tem uma função socialmente reconhecida, mas deixa de ser mulher. Essa espécie de entidade, instituição ou repartição pública em que nos transformamos (ou nos transformam) é chamada de “tia”, “patroa”, “coroa”, enfim, o repertório que os homens usam pra nos lembrar de nossa mudança de estatuto é vastíssimo. Isso quando não soltam frases como “não sou rei, mas gosto de uma coroa” ou “panela velha é que dá bom caldo”, achando que: 1) estão dizendo a coisa mais original do mundo; 2) devemos ficar gratas pelo elogio.
Ah, Isabel Allende, se, como você falou, o ponto G fica no ouvido (e eu concordo), o que fazer pra que os homens tenham um pouquinho mais de sutileza e de elegância no trato com as mulheres acima dos 35? Sei que não são todos. É claro que não são todos. Mas alguns pegam pesado.
Eu, agora, por segurança, na próxima ida a Araxá vou levar na bagagem uma garrafa de café e meia dúzia de pães de queijo. Dirigir 570 quilômetros já não é fácil. Parar pra “ter amolação”, como diz minha mãe, só serve pra tornar a viagem mais difícil. Pode até ser que nas outras lanchonetes o serviço não inclua palavras como “tia” e “patroa”. Mas prefiro não correr o risco.
Foto: Reprodução/Edward Hopper
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